É nóis!

Desde que a Sociolinguística marxista ganhou adeptos dos mais diversos níveis de liberalidade na língua, a expressão “preconceito linguístico” parece ter invadido os cursos de Letras como se fora grande novidade, importante descoberta da ciência sociológica da língua, que enxerga nesta mais um instrumento de dominação ideológica, política, cultural das classes privilegiadas em relação às classes menos abastadas. Em outras palavras, a língua seria usada como mais um instrumento de exclusão na eterna luta de classes que caracteriza o convívio social humano. Digo isso com todo o respeito a essa ciência ideológica, pois concordo com algumas de suas premissas maiores, embora não apoie as menores, nem tampouco as conclusões equivocadas a que seu raciocínio chega.

De que há certa razão quanto ao fato de a língua ser instrumento de poder, não há dúvidas. Como toda linguagem, uma língua é um conjunto de códigos organizados de tal forma que possibilite a comunicação entre os indivíduos, mas também como toda linguagem, o domínio destes códigos pode conferir mais ou menos vantagem aos indivíduos, a depender do grau de conhecimento que eles têm desse instrumento. Desta forma, se, para criar um software, é necessário o domínio específico desta ou daquela linguagem de programação, um programador será mais ou menos capacitado, a depender de seu conhecimento maior ou menor destas linguagens. Analogamente, nas mais diversas situações sociais de comunicação, um falante se sairá melhor ou pior também a depender de seu maior ou menor domínio das possibilidades que seu idioma lhe oferece.

Até aí, tudo bem. Os homens têm aptidões distintas, e não se requererá deste ou daquele homem o mesmo nível de instrução quanto ao idioma vernáculo, que poderá interessar mais a um que a outro. Daí a se concluir, então, que há elitismo no estudo da língua é um passo enorme.

É fato que as ciências matemáticas são fundamentais à compreensão dos fenômenos da natureza, pois estes são descritos e teorizados graças à tradução feita por alguns indivíduos (raríssimos), que conseguem, da observação dos fenômenos naturais, construir modelos teóricos que expliquem tais fenômenos e nos permitam prever a ocorrência de outros. Devido a isso, o conhecimento humano serve, entre outros fins, para possibilitar ao homem um maior controle do mundo que o cerca ou, já que o controle pleno das probabilidades é impossível, ao menos atenuar a sensação de desamparo ou de incerteza quanto aos acontecimentos naturais. E também é fato que o domínio dessas ciências matemáticas é difícil, tanto que boa parte dos alunos dos ensinos fundamental e médio treme diante da mera cogitação de ser avaliada em seu conhecimento algébrico, geométrico, aritmético. Diante de tal dificuldade, o que podemos fazer? Resolver as equações de modo alternativo? Propor soluções que tragam resultado distinto do que deve ser? Evidente que não.

Mas alguns dirão que a comparação entre ciências matemáticas e ciência linguística é descabida, visto que aquelas apresentam um grau de exatidão que esta não tem. A língua não tem a pretensão nem a finalidade de ser imutável ou exata, e atende às necessidades dos falantes. Ora, é evidente que, sendo a língua meio para se atingirem fins (interação social, comunicação), não é a língua, em si mesma, um fim. Quando dizemos que o estudo da língua portuguesa no colégio deve ser feito porque a língua é um fim em si, agimos como pessoas estúpidas que não compreendem a que serve, de fato, o fenômeno linguístico. Não sendo a língua, então, um fim em si mesmo, e sendo meio, é justo adaptar esse meio em razão dos fins que se deseja alcançar. Por isso, a língua é mutável por natureza, e qualquer tentativa de frear sua evolução é inócua e vã.

Mas se a língua é mutável, então qual a necessidade de haver uma norma padrão do idioma, ou seja, um conjunto de regras que deve ser conhecido pelos falantes? A norma serve exatamente para diminuir o grau de incerteza quanto às construções da língua: ela nos dá a segurança de que, quando partirmos à análise de qualquer texto escrito em nosso idioma, poderemos reconhecer suas construções e nos identificarmos com elas, a ponto de conseguirmos compreender as mensagens que um sujeito enunciador, do presente ou do passado, de nossa cidade ou de outra, nos deseja transmitir. Por conseguinte, o estudo da norma serve, tão somente, para ampliar as possibilidades comunicativas, não para restringi-las. É ponto pacífico que qualquer cidadão brasileiro capaz de falar fará uso da língua e comunicar-se-á por meio dela. Mas quantos cidadãos estão excluídos dos processos comunicativos mais complexos, como aqueles da arte literária, do jornalismo crítico, das ciências sociais, dos textos legais, exatamente por não dominarem a norma em que são escritos tais textos?

Qual é nosso papel diante dessa exclusão? A meu ver, há duas formas para solucionar o problema. A primeira delas se daria pela educação, e pelo ensino da norma padrão (empregada nos textos mais complexos) aos cidadãos que, excluídos dela, têm sua cidadania restringida. A segunda seria adaptar esta mesma norma, de modo a democratizá-la: assim, não se diria que “menas gente” é forma menos nobre que “menos gente”, pois não caberiam juízos de valor em relação aos fatos da língua. Disso resultaria que ambas as formas seriam admitidas, o que traria mais pessoas ao grupo dos que dominam essa simples construção normatizada pela Gramática.

Ainda que pareça bem intencionada a segunda solução, ela me parece covarde, acomodada, pois não ataca o problema em sua base. Apenas tenta podar galhos apodrecidos, enquanto as raízes continuam sugando seiva demasiadamente bruta e contaminada. É como criar um “sistema de cotas” na língua, o qual permitiria que aqueles que não tiveram oportunidade de aprender o padrão-língua passassem a ser inseridos nele, empurrados por certa “ajudinha”, a qual nivela por baixo os falantes, a pretexto de se introduzir um sistema plural e democrático. A democracia passa a ser entendida como “tudo é correto”, o que deturpa o ensino do idioma, pois, ao contrário disso, a escola deve democratizar o acesso à norma, com professores que tenham domínio dela e que saibam transmiti-la.

Quando ensina a norma padrão, o professor de Língua Portuguesa não faz apologia a seu uso em todas as situações da fala. Ensinar a norma é um modo de se trazer o estudante para o universo dos que dominam as construções linguísticas mais elaboradas da escrita. Entender de pleno um conto de Machado de Assis, um romance de Graciliano Ramos, um ensaio sobre artes ou um artigo de opinião, o enunciado de leis e sentenças judiciais; toda essa compreensão traz o estudante ao universo da intelectualidade, tornando-o mais capaz de compreender sua realidade e de agir no mundo que o cerca.

Voltando então ao preconceito linguístico, combatê-lo significa exatamente o quê? Trazer a norma popular para a escola a fim de fazer os alunos não zombarem, ou não fazerem “bullying” (ô, palavrinha chata!) contra o “nóis faiz” e o “nóis demo um geito”? Ora, sejamos realistas: o papel da escola é tirar o aluno da ignorância. E ignorância, aqui, não significa usar a norma popular: é exatamente não saber usar a norma padrão. Para conhecer o “nóis faiz”, o aluno não precisa ir ao colégio: isso ele vê no dia a dia, nas situações de fala dos mais diversos contextos sociais e situacionais. Na escola, deve haver espaço para o ensino gradativo da norma, que é, de fato, o que o aluno não sabe. Se é preciso conciliar o ensino da norma à aceitação de outras formas de se comunicar na língua, que se faça isso de modo a mostrar que “preconceito linguístico” é apenas um daqueles nomes politicamente corretos que tentam mascarar a realidade crua e difícil de ser mudada: nossos cidadãos estão cada vez mais afastados do conhecimento da língua, o que, entre outras razões, se justifica pela falta de boa formação dos professores de Língua Portuguesa. Sobre isso, porém, eu falo em outro post.

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2 Comentários

Arquivado em Linguística e Gramática

2 Respostas para “É nóis!

  1. Concordo em gênero, número e grau! Não é nivelando por baixo o conhecimento da nossa língua que se ajuda a resolver o problema da injustiça social no nosso país! http://tinyurl.com/5v3zpyj #preconceitolinguistico
    Divulguem isso nas redes sociais, por favor!

  2. Pingback: A língua e a luta de classes (1ª parte: a sociedade do bedel) | salespoa

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