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Machado de Assis: o racista.

Noites de insônia, posto que venham acompanhadas de desconforto e sensação de cansaço, trazem consigo uma vantagem única: na ausência de sono, é possível ler páginas e páginas daquele livro que teima em avançar, porque sabe merecer leitura cuidadosa e atenta, a fim de que seja mais bem aproveitado pelo leitor. Pois iniciei recentemente a releitura de Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, e detive-me ontem em uma passagem particularmente interessante. Desta vez, prometo não rasgar de elogios nosso maior escritor (isso foi um elogio?) e procurarei deter-me em um ponto polêmico de sua escrita.

No capítulo XVIII do livro, Bentinho e Capitu estão na casa dele, quando à janela aparece um negro vendendo cocadas. Vejamos:

“Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:

— Sinhazinha, qué cocada hoje?

— Não, respondeu Capitu.

— Cocadinha tá boa.

— Vá-se embora, replicou ela sem rispidez.

— Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas.

Comprei-as, mas tive de as comer sozinho; Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância (…).”

Dois pontos me chamaram atenção. O primeiro foi a palavra empregada para se referir ao negro: preto. Preconceito racial? A segunda tem a ver com o “preconceito linguístico”. Machado de Assis faz questão de registrar o falar diverso do padrão nesta personagem, ao passo que as demais (como fica claro ao longo do livro) proferem a norma culta como se fosse ar saindo dos pulmões. Exagero? Ah, mas quem narra esse livro é Bentinho, e não Machado de Assis: Bentinho podia usar preto na referência a um negro; onde está o racismo do escritor? Recorramos a outra obra, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Logo no capítulo XI, pode-se ver o tratamento dado pelo menino Brás Cubas a um escravo, Prudêncio:

 “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!”

 Dirão: mas essa passagem revela como os negros eram tratados em casa de brancos. Certo. Então Machado de Assis só gosta de narradores racistas? Não serve isso a demonstrar o racismo na obra do escritor? Pois então, recorramos aos nomes próprios que Machado dá a seus personagens negros: João Fulo, Maria Gorda. E as pancadas sobre Lucrécia em O caso da vara? Sei não…

Ainda não se convenceu? Nem eu. Sempre tive um pé atrás quando ouvi da suposta força que Machado de Assis fazia para manter-se afastado de sua origem socioeconômica. Alguns grupos que lutam contra o racismo, com base inclusive em opiniões de críticos da época, sempre se queixaram de Machado de Assis como um negro “embranquecido”, não por ser mulato, mas por tratar em seus livros do mundo burguês, seguindo uma estética europeia, enquanto poderia usar de sua condição para enfrentar o preconceito do qual ele mesmo fora vítima tantas vezes. De fato, os negros aparecem na obra machadiana como personagens secundários, e normalmente apresentam fala grosseira, diversa da padrão, e aparecem associados a certo tom de galhofa. Racismo?

Sendo Machado de Assis um realista que busca retratar objetivamente a sociedade, parece-me natural que ele espelhe em suas obras não apenas a exclusão social dos negros pelo não domínio da norma padrão, mas ainda as condições humilhantes a que muita vez eles estavam submetidos. Entretanto, não vi até hoje – não em sua obra literária – nenhuma comprovação de que Machado fosse um defensor da causa abolicionista, quanto mais um racista (talvez queiram transformá-lo em nosso Coleman Silk…). O que vi foi um escritor profundamente atento a sua realidade, um crítico, sem dúvida, mas sem enviesamento político. Machado foi, inclusive, um crítico da abolição nos moldes em que ela foi feita: com o êxodo dos negros das sensalas às favelas. No conto Pai contra mãe, pode-se notar a rejeição de Machado à escravidão, o que seria natural em qualquer pessoa dotada de inteligência e juízo crítico. Mas essa rejeição vem não de discursos inflamados, mas da demonstração dos horrores e da desumanidade no tratamento dos negros. Levantar a bandeira de algum movimento? Felizmente, Machado não se rendeu a isso. Poderia ele com isso ter ganho maior admiração dos grupos que lutam contra o racismo velado na sociedade brasileira. Preferiu, em vez, imprimir grande força a seu estilo como escritor.

 A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres.

A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

O que nos revela tudo isto? Que Machado de Assis, a despeito de sua origem pobre e da herança negra que trazia consigo no sangue, adquiriu na sociedade brasileira do final do século 19 e início do século 20 uma posição social admirável: ascendeu socialmente, aprendeu a norma culta por meio da leitura dos clássicos e dos filólogos da época, e tornou-se tão somente o maior escritor brasileiro. E olha que não havia ninguém à época para alardear o preconceito linguístico. E olha que o Brasil era certamente mais racista e menos tolerante aos negros. E olha que nem havia cotas… Vencedor é isso aí.

Mas eis que não cumpri o prometido. Acabei tecendo elogios ao escritor que, mesmo sendo um dos escritores mais influentes de nossa literatura, a ponto de criar uma pesada sombra em todo brasileiro que se arrisca a escrever, não saiu por aí difundindo ideologias como “nós pega o peixe” ou coisas do tipo. Terá sido ele um “ideólogo da norma linguística”, ou “um conformado” com as imposições dos brancos? Menos, por favor! 

Machado de Assis não precisa de defensores, nem eu tenho a pretensão de sê-lo. Mas sabem como é: numa época em que figuras históricas (veja-se Monteiro Lobato) são tachadas disto ou daquilo tendo como base os critérios morais de nossa época, é sempre bom vigiar. Não me canso de repetir para mim mesmo que o que me enche o saco no politicamente correto não é o correto: é o politicamente.

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A língua e a luta de classes (1ª parte: a sociedade do bedel)

Em post anterior – na verdade, o primeiro do blogue – fiz uma crítica ao pensamento dominante nas faculdades de Letras no Brasil: a teoria sociológica marxista da luta de classes aplicada à Linguística. Aproveito essa ótima oportunidade de discorrer mais sobre o assunto, tendo em vista as notícias recentes que trazem a defesa das teorias de “preconceito linguístico” nos livros escolares, mostrando que a discussão transcendeu o ambiente universitário, quase todo ele já cooptado pelos doutrinadores de esquerda, e chegou finalmente ao Ensino Médio e, por tabela, dada a repercussão do caso “Nós pega o peixe”, a toda a sociedade.

O incidente traz aos cidadãos comuns a possibilidade de refletir sobre que nível de formação nossos professores (graduados em Licenciatura) estão atualmente recebendo nas universidades. Embora a discussão sobre “preconceito linguístico” só agora esteja ocorrendo em escala nacional, há tempos ela já me incomodava, dada a predominância que ela tem tido na lavagem cerebral que é feita pelos marxistas da língua. Antes do ataque, uma explicação: a tal vertente sociolinguística marxista não nasceu a partir da constatação de fenômenos linguísticos; ao contrário, ela nasceu da conformação de uma teoria já pronta (a teoria da luta de classes) aos fatos da língua. Como o assunto é complexo, vou me permitir transformá-lo numa narrativa alegórica, a ser contada em duas partes. Há pontuações na historinha: se elas confundirem, perdoe-me e leia-as primeiro, depois o resto. Começa assim:

 

I. O professor Carlos Marques, altamente viciado no ópio dos intelectuais (a expressão é de Raymond Aron, um dos principais críticos ao marxismo), numa de suas viagens lisérgicas, teve uma ideia que ele mesmo julgou brilhante:

– E se essa teoria escarlate for adaptada à minha área de estudo? Simples assim: como as classes sociais estão, ab initio (pontuo: eles gostam desses termos; fica o escrito mais elegante, e o interlocutor se deixa mais facilmente persuadir), condenadas a uma luta entre si devido às desigualdades econômicas que se lhes impõem, nada mais natural (pontuo: deficiência no raciocínio lógico) que haja também uma luta de classes dentro da língua, luta essa que se daria quando uma classe socialmente privilegiada impõe sua maneira de falar (pontuo: constatação inventada, que não se conforma aos fatos) aos demais, economicamente oprimidos – coitadinhos ficaria mal em meu discurso, ele pondera. A partir dessa dominação (pontuo: observe o leitor que a consequência não se deduz da conclusão nem das premissas), surge um padrão-língua injusto, cruel, que passa a ser usado em textos oficiais, artísticos e educativos, o qual excluirá o proletariado, digo, as classes oprimidas, do bem-falar, condenando-os eternamente a semelhante opressão (pontuo: visão apocalíptica) por meio da linguagem.

Após longa pausa para autoadmiração, o pensador deleitou-se com mais um trago de ópio e, orgulhoso, pensou:

– Há de ter um nome novo essa nova disciplina humana por mim inventada. Que nome lhe darei? – e, após não muito delongada reflexão, excluiu uma alcunha que lembrasse à doutrina seu próprio nome, optando por simplesmente tomar um nome já difundido: Sociolinguística*. Bravo! Bravo! – inflou-se o douto Carlos Marques – é hora de cooptar seguidores.

Carlos Marques saiu então de sua nada humilde residência nos Jardins paulistanos, em busca de jovens que se arrogassem a denominação “intelectuais”, dispostos a difundir sua religião sua ciência. Nas aulas, o mais novo pensador a ser inserido no rol das grandes contribuições humanas ao conhecimento aboliu o conteúdo programático para que sobrasse mais tempo dedicado à explicação e à discussão de sua doutrina; orientou graduandos, mestrandos, doutorandos, dizendo-lhes que não mais se dessem ao trabalho de discutir a norma (nem tampouco as formas adequadas de descrever a língua, para que, durante as lições, os alunos pudessem compreendê-la e agir diante dela); nos intervalos das aulas, distribuía panfletos linguísticos artigos científicos por ele escritos. A doutrina difundiu-se, Carlos Marques fez-se famoso, comprou outro apartamento nos Jardins, o que não o impediu de, em inúmeras palestras (dizem que ele cobra altíssimo valor por elas), continuar combatendo o preconceito linguístico, sempre usando como instrumento de comunicação a pérfida norma padrão, rechaçada por ele em seus escritos. “Não ia pegar bem escrever esses artigos com erros de concordância”, justifica ele, para si mesmo, a fim de não causar mal-estar entre seus copartidários nas ciências linguísticas. (continua…)

 

Carlos Marques? Isso é uma ironia em relação ao grande pensador alemão? De forma alguma. Um pensador alemão, no final do século 20 ou no início do século 21, jamais chegaria a uma teoria estapafúrdia como essa. Essa teoria precisa de um país fraco intelectualmente para ganhar espaço. Em que país o universo da intelectualidade está mais completamente tomado pelas teorias sociológicas ultrapassadas de Marx? No Brasil, lógico. Não é à toa que, conquanto em vários países se possa constatar o desenvolvimento da Sociolinguística, em nenhum outro país do mundo (tome-se, por analogia, o ensino universitário do espanhol nos países latino-americanos) a norma-padrão é tão combatida, atacada, vilipendiada, quanto nestas terras cabralinas. E isso só pode ter uma razão: as pessoas deturpam a ideia de que a língua sofre naturalmente variações com o fato de que, por isso, ela não deve ser rigorosamente normatizada.

Para essa gente, o português brasileiro, daqui a uns cem anos, transformar-se-á em coisa ultrapassada, pois ele não será senão resquícios incultos de uma língua morta (Ó mar português, que o sal de nossos pensadores não transformem a língua pessoana em lágrimas de Portugal!). É o que se deu com o latim, língua difundida por toda a Europa e,  ante a impossibilidade de conter sua vulgarização, converteu-se nos inúmeros dialetos que, mais tarde, se transformariam em português, catalão, castelhano, provençal, galego… Exatamente por isso, em seu poema Língua Portuguesa, Olavo Bilac denomina, a esta, “Última Flor do Lácio, inculta e bela”. Inculta, porque nasceu da vulgarização do latim; bela, porque isso não a fez menor.

Então, se a vulgarização do Português poderá manter sua beleza, por que a norma? A resposta não pode ser outra, senão esta: porque não somos romanos; porque somos portugueses no sangue e brasileiros na alma; porque nossa língua nos define enquanto povo, sociedade; porque somos a nação de Machado, de Rosa, de Drummond, de Bandeira; porque pensamos nessa língua; porque só existimos nela; porque, sem ela, nada somos que nos permita caminhar juntos, como sociedade em busca de um ideal, sendo a língua o meio que nos possibilitará a deliberação, o debate, o confronto das ideias, a fim de que alcancemos os fins maiores; e, sobretudo, porque é pela língua que resistiremos a qualquer tentativa de nos arrancarem o que é nosso, o que é nossa característica mais humana – nossa capacidade de pensar, e de pensar corretamente com a língua que nos inseriu no mundo.

A história de Carlos Marques continua em breve. Altas emoções…

*Em razão de um comentário de Flavio Morgenstern, recebido pelo Twitter, estou fazendo uma pequena emenda ao post: não estou aqui fazendo crítica à Sociolinguística como ramo da linguística ocupado dos estudos das variações sociais, dialetais (diastráticas, diatópicas) da língua: apenas à corrente de certos pensadores, sobretudo da USP e da UnB, os quais – enviesados politicamente – buscam conformar teorias prontas aos fatos da língua.

** Acrescentei mais uma emenda ao post. Vou esperar os desdobramentos do caso “Nós pega o peixe” para continuar a história.

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Spooks!

Aqueles que me seguem pelo Twitter sabem como eu resisto a essa tendência de patrulhamento linguístico que se convencionou chamar de “politicamente correto”, que a partir de agora vou chamar de PC em algumas situações (nenhuma referência ao Partido Comunista). Seus defensores alegam que a resistência a ele consiste na tentativa de conservação de velhos preconceitos, como se o PC viesse magicamente combatê-los por meio da linguagem.

Embora só hoje a expressão tenha se consolidado idiomaticamente, o método de substituir expressões carregadas de negatividade por outras de teor mais positivo é velho, embora só ultimamente ele tenha se arrogado fins mais “nobres”. Tome-se como exemplo a expressão “solução final para o problema judeu” (Endlösung der Judenfrage, no original alemão): num primeiro olhar, assemelha-se a um plano de levar as Doze Tribos de Israel de volta à Terra Santa. Nada disso: como todos sabem, a expressão refere-se ao plano de extermínio dos judeus na Europa, plano este executado por Hitler e seu “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” (bonito nome de partido, não?). Mais curiosa ainda era a inscrição posta na entrada das câmaras de gás dos campos de concentração: Bad und Desinfektion (Banho e Desinfecção). Acreditem-me: exemplos como esses não faltam na desarmônica e politicamente incorreta história da humanidade.

Para o mal ou para o bem, é perfeitamente possível mascarar as ações mais diversas do ser humano por meio de expressões eufemísticas, ou politicamente corretas, como as denominariam hoje. Mas é preciso desde logo fazer uma distinção: eu sei que o PC atua num sentido (pelo menos seu fim último é o de diluir e exterminar preconceitos, não pessoas) diverso daquele em que caminhavam as expressões eufemísticas nazistas. O ponto que vejo em comum nessas situações é que, em ambas, não se denomina o conceito por seu próprio nome. Foi Liev Tolstói quem, em um de seus diários, acentuou a importância de se seguir esse preceito: chamar as coisas pelo nome. Não me esqueço de Alex Supertramp aprendendo isso pouco antes de morrer em Na natureza selvagem (Into the wild, de Sean Penn, 2007). Estivesse vivo, o jovem certamente reconheceria na paranoia que tomou conta de seu país uma violação ao princípio tolstoiano. Pois, às vezes, é importante sim que se chamem as coisas pelo nome para que a realidade possa vir à tona, e aí sim, os preconceitos possam ser combatidos.

O politicamente correto, supõe-se, é uma reação ao conservadorismo que se enraíza na sociedade por meio das formas mais cruéis de preconceito. Pois eu vejo nele uma forma não de trazer à tona preconceitos velados, mas exatamente de velar preconceitos trazidos à tona nas mais diversas situações do cotidiano. Podem-se usar as palavras com intenções distintas, e quem conhece a diferença entre Semântica e Pragmática sabe que, ao passo que a primeira relaciona o signo com seu objeto de significação, a segunda o relaciona com o sujeito que faz uso desse mesmo signo, e por isso tenta captar as intenções impressas por esse sujeito no signo que ele emprega. Para sair da abstração, a palavra negro tem intenções distintas nas sentenças “Saia daqui, seu negro!” e “Os negros no Brasil ainda lutam contra o racismo”, e acredito que sua substituição por afro-brasileiro, tanto na primeira quanto na segunda sentença, não alteraria o significado que, pragmaticamente, o signo assume em cada um dos casos. Mesmo palavras que as pessoas tomam como carregadas de preconceito, como “veado”, podem ser usadas para expressar carinho em relação a um amigo. Já vi, em várias situações, amigos cumprimentarem-se, abraçarem-se, dizendo “E aí, seu veado! Há quanto tempo!”. Acho que ninguém saiu ofendido dessas situações, ao contrário. A intenção preconceituosa, mais do que uma palavra ou uma perífrase, é que deve ser combatida.

O fato é que a praga do PC chegou por aqui, e chega-se a exageros absurdos como o da tentativa de proibir uma obra de Monteiro Lobato nas escolas pelo suposto racismo encontrado pelos patrulheiros da comunicação. “Isso não se diz”, “essa palavra é carregada de preconceito” são afirmações generalistas demais no campo da linguagem, que é polissêmica por natureza, que não pode ser reduzida a intenções negativas supostas em todas as situações em que é empregada. Ultimamente, até a expressão “erro de português” tem caído nas mãos dos defensores mais enérgicos do PC: não é “erro”, é “tentativa de acerto”, já li em livros de Marcos Bagno (Preconceito linguístico e Dramática da Língua Portuguesa). Pelo amor de Deus, até onde isso vai parar? Será que não há uma Endlösung para tanto blablablá?

Toda vez que falo do PC, eu me lembro do pobre Coleman Silk. Acho que nenhum homem foi mais desgraçado que ele em matéria de vítima desse fenômeno linguístico. A história de Coleman é fantástica. Negro de pele muito clara, cresceu na América do pós-guerra cercado das mais terríveis manifestações de preconceito contra sua cor (ou condição de pele?). Ao entrar na Marinha, percebeu que muitos não o julgavam por negro, embora notassem nele traços distintos do americano branco de linhagem europeia, caucasiana, etc. Com base nisso, renegou a família e seu passado, e assumiu-se judeu: a mentira colou, e ele se tornou respeitável professor universitário (a família jamais soube dele novamente). No auge da histeria do PC nos Estados Unidos (aquela mesma em que uma felação no Salão Oval quase derrubou um presidente), Coleman Silk teve sua vida desgraçada: ao notar que dois de seus alunos nunca vinham à aula, resolveu perguntar “Essas pessoas existem ou são… spooks?”. Pois os alunos eram negros, e Coleman Silk foi ironicamente destruído pelo poder de uma palavrinha: spook, que em inglês pode ser tanto fantasma (acepção empregada pelo professor no contexto) quanto forma pejorativa para se referir a negro. Pois o negro autorracista, Silk, perdeu cargo, prestígio, esposa, tudo por causa de uma maldita polissemia, e do PC, claro: o racismo dele em relação a si mesmo, por ironia do destino ou do escritor?, volta para acertar contas no final de sua vida. Depois disso, ele, um erudito, envolve-se com uma mulher analfabeta, faxineira da universidade em que trabalhava, causando mais um escândalo em sua vida: ah, o Viagra!

Coleman Silk não existiu de verdade. Minto, existiu sim. É personagem de ficção de um belíssimo livro de Philip Roth, A marca humana. Quem há de dizer que os personagens de ficção não existem? Tanto existem que cá estou eu falando do pobre homem. Nesta obra, Roth ataca o politicamente correto com todas as suas forças literárias (e não são poucas), mostrando um ambiente kafkiano de linguagem a cercar os homens às vésperas do século 21. Como tudo chega atrasado por aqui, parece que só agora começamos a questionar os limites do politicamente correto. E, como esse tema rende, vou terminar esse post citando algumas das passagens mais fantásticas do livro, e continuarei a discussão sobre o PC e o patrulhamento da linguagem em outra oportunidade:

 “Assim, por que motivo, tendo transformado minha experiência de isolamento radical numa vida solitária de grande riqueza – por que motivo, sem aviso prévio, comecei a sentir solidão? O que me estaria fazendo falta? O que passou, passou. Não há como relaxar o vigor, voltar atrás nas renúncias. De que afinal eu sentia falta? Muito simples: daquilo que havia passado a me inspirar aversão. Daquilo que eu havia abandonado. Da vida. Do envolvimento com a vida.”

“Você tira a roupa, vai para a cama com alguém, e é justamente nesse momento que tudo aquilo em que você se esconde, sua particularidade, seja lá qual for, seja lá como estiver codificada, é descoberto, e é esse o motivo da timidez, do medo que todo mundo sente. Naquele lugar louco e anárquico, quanto de mim está exposto, quanto de mim está a descoberto? Agora eu sei quem você é. Vejo agora seus músculos de negro.

“Se o Clinton tivesse enrabado essa mulher, ela era bem capaz de ficar de bico calado. O Bill Clinton não é esse machão todo que dizem que ele é. Se ele vira a tal estagiária de bruços lá no salão Oval e enfia no cu dela, nada disso acontecia.”

“Nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excremento, esperma – não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. (…) Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza.”

 Sério, não vou postar todas, porque são inúmeras, mas esta última dá bem a ideia do que muita gente ignora. Nem que fosse eventualmente, uma vez que lhes interessam as coisas do homem, os cientistas sociais deveriam cuidar – nos momentos em que não estão teorizando sobre fatos e ideias, nos momentos de lazer – mais da literatura, investigá-la, clarear suas ideias com um pouco de ficção, porque, embora a arte literária não tenha a pretensão de ser científica, ela tem pelo menos a qualidade de ser humana.

 

Uma emenda ao post, dado o comentário negativo que recebi. Eu não estou defendendo que se possa usar a linguagem para ofender outrem. Só estou dizendo que não é a linguagem que é responsável pela visão de mundo de seu usuário. Essa visão se manifesta PELA linguagem e não POR CAUSA dela. Assim, os preconceitos se combatem nas ações, pela educação, e não podando esta ou aquela palavra da boca dos falantes. Despidos de preconceitos, eles saberão como usar a linguagem com a forma adequada aos fins que buscam atingir. Quando citei o fato de chamar as coisas por seu nome, quis apenas dizer que cada falante entende ser esta ou aquela palavra a mais adequada para certo contexto, e é claro que essa escolha pode revelar preconceitos. Não é a palavra, porém, que traz o preconceito: ela é apenas o meio pelo qual ele se manifesta. Sem mimimi.

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