A vida não é bela: é doce.

Antes de seduzir o mundo com A vida é bela (La vita è bella, de Roberto Benigni, 1997), o cinema italiano já havia conquistado público e crítica com outros filmes mais belos e mais profundos do que o circo de mentiras do Holocausto protagonizado por Roberto Benigni. A doce vida (La dolce vita, de Federico Fellini, 1960) é um deles: para mim, um dos quatro maiores trabalhos de Fellini (os outros três seriam La strada, Notti di cabiria e 8 ½). Você já ouviu ou já usou o termo paparazzo? Pois então você pode nem saber, mas foi Fellini quem eternizou a palavra.

Paparazzo é o nome de uma das inúmeras personagens de A doce vida, um jornalista que vive das fotografias exclusivas que ele consegue dos protagonistas da alta società de Roma. Sem medir esforços para conseguir o furo fotográfico, o personagem fez de seu nome substantivo comum, ou adjetivo, empregado no mundo inteiro. Mas Paparazzo é personagem menor dentro do filme, que conta a história de Marcello Rubini, um jornalista boa-vida, um playboy, que vive a amarga dolce vita do título.

O filme é excelente em todos os sentidos, mas quem nunca viu um filme de Fellini pode estranhar o enredo. Considerado de transição na obra do cineasta (quem viu La strada, anterior, e 8 ½, posterior, consegue perceber claramente a distinção entre as duas fases), o filme é construído a partir de episódios, todos eles gravitando em torno do personagem principal, Marcello, interpretado por Marcello Mastroiani, alter ego de Fellini em seus filmes.

Família, sexo casual, orgias, religiosidade, degradação moral, suicídio, paixão, tudo é trazido à vida de Marcello ao longo de uma semana (há quem diga que o filme se passa em sete dias, cada qual fazendo referência a um pecado capital – eu, particularmente, não consegui chegar tão longe, nem nos pecados, nem nos dias, que para mim não chegam a sete). O filme trata assim, da degradação da Roma do pós-guerra: é possível ver cenas em que a cidade é reconstruída, por exemplo. Mas essa reconstrução é meramente física, pois moralmente a cidade se corrói, e a vida das pessoas passa a refletir um vazio existencial, que as obriga aos impulsos: a mentira, o sexo e o suicídio entram neste sentido.

Fellini ataca a religiosidade de Roma num dos episódios mais marcantes: a cena em que duas irmãs inventam um suposto milagre de uma santa, e atraem multidões com sua mentira. Mas nada disso é óbvio, e o espectador mais desatento pode ter dificuldade em ligar os episódios e dar a eles um significado único. Pois quem tentar fazê-lo terá problemas com Fellini. O cineasta italiano tem muito a dizer, e nem tudo se interliga de forma harmônica, visando a alcançar um único sentido. O melhor a fazer é curtir cada episódio e compreender o que se passa na mente de Marcello, o homem que tem a vida dos sonhos de quase todos os homens, mas que necessita, a todo o custo, preencher o vazio que essa vida lhe traz.

As cenas inicial e final são interessantes: o barulho de um helicóptero, no início, e o barulho do mar, no final, impedem o protagonista de ouvir o que lhe dizem seus interlocutores. O que quererá Fellini dizer acerca da comunicação humana? Mas, a despeito disso, a cena que ficará na cabeça é a de Sylvia, atriz hollywoodiana a quem Marcello deve acompanhar em sua visita a Roma e que o encanta apaixonadamente, interpretada magistralmente por Anita Ekberg. O banho dela na Fontana di Trevi é a cena mais clássica do filme.


Para Fellini, a vida não é exatamente bela, embora ela tenha sua beleza amarga. Ela é doce, mas como tudo que é doce, nem sempre satisfaz.

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Os olhos de Capitu

Inauguro a seção de Literatura deste blogue falando de Machado de Assis. Não poderia ser diferente, tendo em vista que é, em minha opinião e na de muitos outros mais capazes de embasar a sua, o maior escritor da prosa brasileira. Machado de Assis já nem é mais um escritor: é uma instituição. Falar mal dele, por exemplo, exige argumentos quase impossíveis de conseguir. Mas não é por isso que optei por falar bem do Bruxo (Bruxo do Cosme Velho é sua mais conhecida antonomásia). Tenho o hábito de, todo ano, reler alguma de suas maiores obras, quando não me enveredo, numa noite ou em outra, por seus contos. Neste ano, escolhi Dom Casmurro, e ainda estou no início da releitura.

Fico realmente admirado e impressionado com a capacidade que Machado de Assis tem de ser conciso e poético, o que é uma reunião de atributos raríssima nos prosadores. Particularmente no Brasil, nossos escritores têm o péssimo hábito de, no afã de construírem passagens estéticas, enveredarem-se em adjetivações e metáforas desnecessárias, as quais, quando lemos, parecem-nos nitidamente desnecessárias à sobrevivência do texto. Por outro lado, há aqueles que privilegiam a objetividade, a concisão, o que gera uma literatura que busca sua estética exatamente afastando-se daquilo que aos clássicos pareceria belo. Machado de Assis reúne ambas as características de modo invejável. Os capítulos de seus romances são breves, mas ao mesmo tempo densos, repletos daquele humor ácido, daquela visão pessimista do homem e das relações humanas: alguns o chamariam realista, mas Machado é “o Polígrafo inclassificável”, e conferir-lhe rótulos é subestimar completamente sua estética única.

Logo no capítulo segundo de Dom Casmurro, o narrador busca nos situar quando às razões que o levaram a narrar sua história. Em certa passagem, ele afirma: “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos”. Essa passagem me chamou a atenção como não o fez das outras duas vezes que li o livro – e é exatamente por isso que tenho o hábito de reler a obra machadiana. Quando se refere a “estudar a geologia dos campos santos”, o autor mistura, de modo inesperado, ciência e morte, resultando num eufemismo tão gelado quanto a própria ideia de morrer. A simplicidade da construção é impressionante, e sinceramente não consigo entender aqueles que classificam Machado como um escritor difícil, complicado. Complexo, talvez, dado o enorme poder facilmente verificado na simplicidade de sua sintaxe. Neste ponto de vista, sua obra é sem igual: qualquer pessoa interessada no estudo das estruturas da língua deverá recorrer a Machado, que as domina de forma ímpar.

Neste momento da leitura, acabo de reler o capítulo XXXII, Olhos de ressaca, que sempre foi, a meu ver, o melhor do livro. Nele, pode-se ler a passagem clássica da comparação entre os olhos de Capitu, que José Dias definira em capítulos anteriores como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, e a vaga marinha. Melhor deixar o autor falar por si:

Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

É realmente de impressionar. Se todas as comparações de nossa literatura tivessem essa profundidade, não tenho dúvidas de que teríamos já produzido outros escritores geniais. Alguém conhece expressão metafórica da prosa mais popularizada do que “olhos de ressaca”? Tudo bem, alguns a usam pensando que ela se refere a uma pessoa acordando depois de uma noite de bebedeira. Ainda assim, a metáfora está na boca do cidadão comum.

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É nóis!

Desde que a Sociolinguística marxista ganhou adeptos dos mais diversos níveis de liberalidade na língua, a expressão “preconceito linguístico” parece ter invadido os cursos de Letras como se fora grande novidade, importante descoberta da ciência sociológica da língua, que enxerga nesta mais um instrumento de dominação ideológica, política, cultural das classes privilegiadas em relação às classes menos abastadas. Em outras palavras, a língua seria usada como mais um instrumento de exclusão na eterna luta de classes que caracteriza o convívio social humano. Digo isso com todo o respeito a essa ciência ideológica, pois concordo com algumas de suas premissas maiores, embora não apoie as menores, nem tampouco as conclusões equivocadas a que seu raciocínio chega.

De que há certa razão quanto ao fato de a língua ser instrumento de poder, não há dúvidas. Como toda linguagem, uma língua é um conjunto de códigos organizados de tal forma que possibilite a comunicação entre os indivíduos, mas também como toda linguagem, o domínio destes códigos pode conferir mais ou menos vantagem aos indivíduos, a depender do grau de conhecimento que eles têm desse instrumento. Desta forma, se, para criar um software, é necessário o domínio específico desta ou daquela linguagem de programação, um programador será mais ou menos capacitado, a depender de seu conhecimento maior ou menor destas linguagens. Analogamente, nas mais diversas situações sociais de comunicação, um falante se sairá melhor ou pior também a depender de seu maior ou menor domínio das possibilidades que seu idioma lhe oferece.

Até aí, tudo bem. Os homens têm aptidões distintas, e não se requererá deste ou daquele homem o mesmo nível de instrução quanto ao idioma vernáculo, que poderá interessar mais a um que a outro. Daí a se concluir, então, que há elitismo no estudo da língua é um passo enorme.

É fato que as ciências matemáticas são fundamentais à compreensão dos fenômenos da natureza, pois estes são descritos e teorizados graças à tradução feita por alguns indivíduos (raríssimos), que conseguem, da observação dos fenômenos naturais, construir modelos teóricos que expliquem tais fenômenos e nos permitam prever a ocorrência de outros. Devido a isso, o conhecimento humano serve, entre outros fins, para possibilitar ao homem um maior controle do mundo que o cerca ou, já que o controle pleno das probabilidades é impossível, ao menos atenuar a sensação de desamparo ou de incerteza quanto aos acontecimentos naturais. E também é fato que o domínio dessas ciências matemáticas é difícil, tanto que boa parte dos alunos dos ensinos fundamental e médio treme diante da mera cogitação de ser avaliada em seu conhecimento algébrico, geométrico, aritmético. Diante de tal dificuldade, o que podemos fazer? Resolver as equações de modo alternativo? Propor soluções que tragam resultado distinto do que deve ser? Evidente que não.

Mas alguns dirão que a comparação entre ciências matemáticas e ciência linguística é descabida, visto que aquelas apresentam um grau de exatidão que esta não tem. A língua não tem a pretensão nem a finalidade de ser imutável ou exata, e atende às necessidades dos falantes. Ora, é evidente que, sendo a língua meio para se atingirem fins (interação social, comunicação), não é a língua, em si mesma, um fim. Quando dizemos que o estudo da língua portuguesa no colégio deve ser feito porque a língua é um fim em si, agimos como pessoas estúpidas que não compreendem a que serve, de fato, o fenômeno linguístico. Não sendo a língua, então, um fim em si mesmo, e sendo meio, é justo adaptar esse meio em razão dos fins que se deseja alcançar. Por isso, a língua é mutável por natureza, e qualquer tentativa de frear sua evolução é inócua e vã.

Mas se a língua é mutável, então qual a necessidade de haver uma norma padrão do idioma, ou seja, um conjunto de regras que deve ser conhecido pelos falantes? A norma serve exatamente para diminuir o grau de incerteza quanto às construções da língua: ela nos dá a segurança de que, quando partirmos à análise de qualquer texto escrito em nosso idioma, poderemos reconhecer suas construções e nos identificarmos com elas, a ponto de conseguirmos compreender as mensagens que um sujeito enunciador, do presente ou do passado, de nossa cidade ou de outra, nos deseja transmitir. Por conseguinte, o estudo da norma serve, tão somente, para ampliar as possibilidades comunicativas, não para restringi-las. É ponto pacífico que qualquer cidadão brasileiro capaz de falar fará uso da língua e comunicar-se-á por meio dela. Mas quantos cidadãos estão excluídos dos processos comunicativos mais complexos, como aqueles da arte literária, do jornalismo crítico, das ciências sociais, dos textos legais, exatamente por não dominarem a norma em que são escritos tais textos?

Qual é nosso papel diante dessa exclusão? A meu ver, há duas formas para solucionar o problema. A primeira delas se daria pela educação, e pelo ensino da norma padrão (empregada nos textos mais complexos) aos cidadãos que, excluídos dela, têm sua cidadania restringida. A segunda seria adaptar esta mesma norma, de modo a democratizá-la: assim, não se diria que “menas gente” é forma menos nobre que “menos gente”, pois não caberiam juízos de valor em relação aos fatos da língua. Disso resultaria que ambas as formas seriam admitidas, o que traria mais pessoas ao grupo dos que dominam essa simples construção normatizada pela Gramática.

Ainda que pareça bem intencionada a segunda solução, ela me parece covarde, acomodada, pois não ataca o problema em sua base. Apenas tenta podar galhos apodrecidos, enquanto as raízes continuam sugando seiva demasiadamente bruta e contaminada. É como criar um “sistema de cotas” na língua, o qual permitiria que aqueles que não tiveram oportunidade de aprender o padrão-língua passassem a ser inseridos nele, empurrados por certa “ajudinha”, a qual nivela por baixo os falantes, a pretexto de se introduzir um sistema plural e democrático. A democracia passa a ser entendida como “tudo é correto”, o que deturpa o ensino do idioma, pois, ao contrário disso, a escola deve democratizar o acesso à norma, com professores que tenham domínio dela e que saibam transmiti-la.

Quando ensina a norma padrão, o professor de Língua Portuguesa não faz apologia a seu uso em todas as situações da fala. Ensinar a norma é um modo de se trazer o estudante para o universo dos que dominam as construções linguísticas mais elaboradas da escrita. Entender de pleno um conto de Machado de Assis, um romance de Graciliano Ramos, um ensaio sobre artes ou um artigo de opinião, o enunciado de leis e sentenças judiciais; toda essa compreensão traz o estudante ao universo da intelectualidade, tornando-o mais capaz de compreender sua realidade e de agir no mundo que o cerca.

Voltando então ao preconceito linguístico, combatê-lo significa exatamente o quê? Trazer a norma popular para a escola a fim de fazer os alunos não zombarem, ou não fazerem “bullying” (ô, palavrinha chata!) contra o “nóis faiz” e o “nóis demo um geito”? Ora, sejamos realistas: o papel da escola é tirar o aluno da ignorância. E ignorância, aqui, não significa usar a norma popular: é exatamente não saber usar a norma padrão. Para conhecer o “nóis faiz”, o aluno não precisa ir ao colégio: isso ele vê no dia a dia, nas situações de fala dos mais diversos contextos sociais e situacionais. Na escola, deve haver espaço para o ensino gradativo da norma, que é, de fato, o que o aluno não sabe. Se é preciso conciliar o ensino da norma à aceitação de outras formas de se comunicar na língua, que se faça isso de modo a mostrar que “preconceito linguístico” é apenas um daqueles nomes politicamente corretos que tentam mascarar a realidade crua e difícil de ser mudada: nossos cidadãos estão cada vez mais afastados do conhecimento da língua, o que, entre outras razões, se justifica pela falta de boa formação dos professores de Língua Portuguesa. Sobre isso, porém, eu falo em outro post.

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