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A língua e a luta de classes (1ª parte: a sociedade do bedel)

Em post anterior – na verdade, o primeiro do blogue – fiz uma crítica ao pensamento dominante nas faculdades de Letras no Brasil: a teoria sociológica marxista da luta de classes aplicada à Linguística. Aproveito essa ótima oportunidade de discorrer mais sobre o assunto, tendo em vista as notícias recentes que trazem a defesa das teorias de “preconceito linguístico” nos livros escolares, mostrando que a discussão transcendeu o ambiente universitário, quase todo ele já cooptado pelos doutrinadores de esquerda, e chegou finalmente ao Ensino Médio e, por tabela, dada a repercussão do caso “Nós pega o peixe”, a toda a sociedade.

O incidente traz aos cidadãos comuns a possibilidade de refletir sobre que nível de formação nossos professores (graduados em Licenciatura) estão atualmente recebendo nas universidades. Embora a discussão sobre “preconceito linguístico” só agora esteja ocorrendo em escala nacional, há tempos ela já me incomodava, dada a predominância que ela tem tido na lavagem cerebral que é feita pelos marxistas da língua. Antes do ataque, uma explicação: a tal vertente sociolinguística marxista não nasceu a partir da constatação de fenômenos linguísticos; ao contrário, ela nasceu da conformação de uma teoria já pronta (a teoria da luta de classes) aos fatos da língua. Como o assunto é complexo, vou me permitir transformá-lo numa narrativa alegórica, a ser contada em duas partes. Há pontuações na historinha: se elas confundirem, perdoe-me e leia-as primeiro, depois o resto. Começa assim:

 

I. O professor Carlos Marques, altamente viciado no ópio dos intelectuais (a expressão é de Raymond Aron, um dos principais críticos ao marxismo), numa de suas viagens lisérgicas, teve uma ideia que ele mesmo julgou brilhante:

– E se essa teoria escarlate for adaptada à minha área de estudo? Simples assim: como as classes sociais estão, ab initio (pontuo: eles gostam desses termos; fica o escrito mais elegante, e o interlocutor se deixa mais facilmente persuadir), condenadas a uma luta entre si devido às desigualdades econômicas que se lhes impõem, nada mais natural (pontuo: deficiência no raciocínio lógico) que haja também uma luta de classes dentro da língua, luta essa que se daria quando uma classe socialmente privilegiada impõe sua maneira de falar (pontuo: constatação inventada, que não se conforma aos fatos) aos demais, economicamente oprimidos – coitadinhos ficaria mal em meu discurso, ele pondera. A partir dessa dominação (pontuo: observe o leitor que a consequência não se deduz da conclusão nem das premissas), surge um padrão-língua injusto, cruel, que passa a ser usado em textos oficiais, artísticos e educativos, o qual excluirá o proletariado, digo, as classes oprimidas, do bem-falar, condenando-os eternamente a semelhante opressão (pontuo: visão apocalíptica) por meio da linguagem.

Após longa pausa para autoadmiração, o pensador deleitou-se com mais um trago de ópio e, orgulhoso, pensou:

– Há de ter um nome novo essa nova disciplina humana por mim inventada. Que nome lhe darei? – e, após não muito delongada reflexão, excluiu uma alcunha que lembrasse à doutrina seu próprio nome, optando por simplesmente tomar um nome já difundido: Sociolinguística*. Bravo! Bravo! – inflou-se o douto Carlos Marques – é hora de cooptar seguidores.

Carlos Marques saiu então de sua nada humilde residência nos Jardins paulistanos, em busca de jovens que se arrogassem a denominação “intelectuais”, dispostos a difundir sua religião sua ciência. Nas aulas, o mais novo pensador a ser inserido no rol das grandes contribuições humanas ao conhecimento aboliu o conteúdo programático para que sobrasse mais tempo dedicado à explicação e à discussão de sua doutrina; orientou graduandos, mestrandos, doutorandos, dizendo-lhes que não mais se dessem ao trabalho de discutir a norma (nem tampouco as formas adequadas de descrever a língua, para que, durante as lições, os alunos pudessem compreendê-la e agir diante dela); nos intervalos das aulas, distribuía panfletos linguísticos artigos científicos por ele escritos. A doutrina difundiu-se, Carlos Marques fez-se famoso, comprou outro apartamento nos Jardins, o que não o impediu de, em inúmeras palestras (dizem que ele cobra altíssimo valor por elas), continuar combatendo o preconceito linguístico, sempre usando como instrumento de comunicação a pérfida norma padrão, rechaçada por ele em seus escritos. “Não ia pegar bem escrever esses artigos com erros de concordância”, justifica ele, para si mesmo, a fim de não causar mal-estar entre seus copartidários nas ciências linguísticas. (continua…)

 

Carlos Marques? Isso é uma ironia em relação ao grande pensador alemão? De forma alguma. Um pensador alemão, no final do século 20 ou no início do século 21, jamais chegaria a uma teoria estapafúrdia como essa. Essa teoria precisa de um país fraco intelectualmente para ganhar espaço. Em que país o universo da intelectualidade está mais completamente tomado pelas teorias sociológicas ultrapassadas de Marx? No Brasil, lógico. Não é à toa que, conquanto em vários países se possa constatar o desenvolvimento da Sociolinguística, em nenhum outro país do mundo (tome-se, por analogia, o ensino universitário do espanhol nos países latino-americanos) a norma-padrão é tão combatida, atacada, vilipendiada, quanto nestas terras cabralinas. E isso só pode ter uma razão: as pessoas deturpam a ideia de que a língua sofre naturalmente variações com o fato de que, por isso, ela não deve ser rigorosamente normatizada.

Para essa gente, o português brasileiro, daqui a uns cem anos, transformar-se-á em coisa ultrapassada, pois ele não será senão resquícios incultos de uma língua morta (Ó mar português, que o sal de nossos pensadores não transformem a língua pessoana em lágrimas de Portugal!). É o que se deu com o latim, língua difundida por toda a Europa e,  ante a impossibilidade de conter sua vulgarização, converteu-se nos inúmeros dialetos que, mais tarde, se transformariam em português, catalão, castelhano, provençal, galego… Exatamente por isso, em seu poema Língua Portuguesa, Olavo Bilac denomina, a esta, “Última Flor do Lácio, inculta e bela”. Inculta, porque nasceu da vulgarização do latim; bela, porque isso não a fez menor.

Então, se a vulgarização do Português poderá manter sua beleza, por que a norma? A resposta não pode ser outra, senão esta: porque não somos romanos; porque somos portugueses no sangue e brasileiros na alma; porque nossa língua nos define enquanto povo, sociedade; porque somos a nação de Machado, de Rosa, de Drummond, de Bandeira; porque pensamos nessa língua; porque só existimos nela; porque, sem ela, nada somos que nos permita caminhar juntos, como sociedade em busca de um ideal, sendo a língua o meio que nos possibilitará a deliberação, o debate, o confronto das ideias, a fim de que alcancemos os fins maiores; e, sobretudo, porque é pela língua que resistiremos a qualquer tentativa de nos arrancarem o que é nosso, o que é nossa característica mais humana – nossa capacidade de pensar, e de pensar corretamente com a língua que nos inseriu no mundo.

A história de Carlos Marques continua em breve. Altas emoções…

*Em razão de um comentário de Flavio Morgenstern, recebido pelo Twitter, estou fazendo uma pequena emenda ao post: não estou aqui fazendo crítica à Sociolinguística como ramo da linguística ocupado dos estudos das variações sociais, dialetais (diastráticas, diatópicas) da língua: apenas à corrente de certos pensadores, sobretudo da USP e da UnB, os quais – enviesados politicamente – buscam conformar teorias prontas aos fatos da língua.

** Acrescentei mais uma emenda ao post. Vou esperar os desdobramentos do caso “Nós pega o peixe” para continuar a história.

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Arquivado em Linguística e Gramática, Literatura, Literatura nacional, Sociedade e Cultura

É nóis!

Desde que a Sociolinguística marxista ganhou adeptos dos mais diversos níveis de liberalidade na língua, a expressão “preconceito linguístico” parece ter invadido os cursos de Letras como se fora grande novidade, importante descoberta da ciência sociológica da língua, que enxerga nesta mais um instrumento de dominação ideológica, política, cultural das classes privilegiadas em relação às classes menos abastadas. Em outras palavras, a língua seria usada como mais um instrumento de exclusão na eterna luta de classes que caracteriza o convívio social humano. Digo isso com todo o respeito a essa ciência ideológica, pois concordo com algumas de suas premissas maiores, embora não apoie as menores, nem tampouco as conclusões equivocadas a que seu raciocínio chega.

De que há certa razão quanto ao fato de a língua ser instrumento de poder, não há dúvidas. Como toda linguagem, uma língua é um conjunto de códigos organizados de tal forma que possibilite a comunicação entre os indivíduos, mas também como toda linguagem, o domínio destes códigos pode conferir mais ou menos vantagem aos indivíduos, a depender do grau de conhecimento que eles têm desse instrumento. Desta forma, se, para criar um software, é necessário o domínio específico desta ou daquela linguagem de programação, um programador será mais ou menos capacitado, a depender de seu conhecimento maior ou menor destas linguagens. Analogamente, nas mais diversas situações sociais de comunicação, um falante se sairá melhor ou pior também a depender de seu maior ou menor domínio das possibilidades que seu idioma lhe oferece.

Até aí, tudo bem. Os homens têm aptidões distintas, e não se requererá deste ou daquele homem o mesmo nível de instrução quanto ao idioma vernáculo, que poderá interessar mais a um que a outro. Daí a se concluir, então, que há elitismo no estudo da língua é um passo enorme.

É fato que as ciências matemáticas são fundamentais à compreensão dos fenômenos da natureza, pois estes são descritos e teorizados graças à tradução feita por alguns indivíduos (raríssimos), que conseguem, da observação dos fenômenos naturais, construir modelos teóricos que expliquem tais fenômenos e nos permitam prever a ocorrência de outros. Devido a isso, o conhecimento humano serve, entre outros fins, para possibilitar ao homem um maior controle do mundo que o cerca ou, já que o controle pleno das probabilidades é impossível, ao menos atenuar a sensação de desamparo ou de incerteza quanto aos acontecimentos naturais. E também é fato que o domínio dessas ciências matemáticas é difícil, tanto que boa parte dos alunos dos ensinos fundamental e médio treme diante da mera cogitação de ser avaliada em seu conhecimento algébrico, geométrico, aritmético. Diante de tal dificuldade, o que podemos fazer? Resolver as equações de modo alternativo? Propor soluções que tragam resultado distinto do que deve ser? Evidente que não.

Mas alguns dirão que a comparação entre ciências matemáticas e ciência linguística é descabida, visto que aquelas apresentam um grau de exatidão que esta não tem. A língua não tem a pretensão nem a finalidade de ser imutável ou exata, e atende às necessidades dos falantes. Ora, é evidente que, sendo a língua meio para se atingirem fins (interação social, comunicação), não é a língua, em si mesma, um fim. Quando dizemos que o estudo da língua portuguesa no colégio deve ser feito porque a língua é um fim em si, agimos como pessoas estúpidas que não compreendem a que serve, de fato, o fenômeno linguístico. Não sendo a língua, então, um fim em si mesmo, e sendo meio, é justo adaptar esse meio em razão dos fins que se deseja alcançar. Por isso, a língua é mutável por natureza, e qualquer tentativa de frear sua evolução é inócua e vã.

Mas se a língua é mutável, então qual a necessidade de haver uma norma padrão do idioma, ou seja, um conjunto de regras que deve ser conhecido pelos falantes? A norma serve exatamente para diminuir o grau de incerteza quanto às construções da língua: ela nos dá a segurança de que, quando partirmos à análise de qualquer texto escrito em nosso idioma, poderemos reconhecer suas construções e nos identificarmos com elas, a ponto de conseguirmos compreender as mensagens que um sujeito enunciador, do presente ou do passado, de nossa cidade ou de outra, nos deseja transmitir. Por conseguinte, o estudo da norma serve, tão somente, para ampliar as possibilidades comunicativas, não para restringi-las. É ponto pacífico que qualquer cidadão brasileiro capaz de falar fará uso da língua e comunicar-se-á por meio dela. Mas quantos cidadãos estão excluídos dos processos comunicativos mais complexos, como aqueles da arte literária, do jornalismo crítico, das ciências sociais, dos textos legais, exatamente por não dominarem a norma em que são escritos tais textos?

Qual é nosso papel diante dessa exclusão? A meu ver, há duas formas para solucionar o problema. A primeira delas se daria pela educação, e pelo ensino da norma padrão (empregada nos textos mais complexos) aos cidadãos que, excluídos dela, têm sua cidadania restringida. A segunda seria adaptar esta mesma norma, de modo a democratizá-la: assim, não se diria que “menas gente” é forma menos nobre que “menos gente”, pois não caberiam juízos de valor em relação aos fatos da língua. Disso resultaria que ambas as formas seriam admitidas, o que traria mais pessoas ao grupo dos que dominam essa simples construção normatizada pela Gramática.

Ainda que pareça bem intencionada a segunda solução, ela me parece covarde, acomodada, pois não ataca o problema em sua base. Apenas tenta podar galhos apodrecidos, enquanto as raízes continuam sugando seiva demasiadamente bruta e contaminada. É como criar um “sistema de cotas” na língua, o qual permitiria que aqueles que não tiveram oportunidade de aprender o padrão-língua passassem a ser inseridos nele, empurrados por certa “ajudinha”, a qual nivela por baixo os falantes, a pretexto de se introduzir um sistema plural e democrático. A democracia passa a ser entendida como “tudo é correto”, o que deturpa o ensino do idioma, pois, ao contrário disso, a escola deve democratizar o acesso à norma, com professores que tenham domínio dela e que saibam transmiti-la.

Quando ensina a norma padrão, o professor de Língua Portuguesa não faz apologia a seu uso em todas as situações da fala. Ensinar a norma é um modo de se trazer o estudante para o universo dos que dominam as construções linguísticas mais elaboradas da escrita. Entender de pleno um conto de Machado de Assis, um romance de Graciliano Ramos, um ensaio sobre artes ou um artigo de opinião, o enunciado de leis e sentenças judiciais; toda essa compreensão traz o estudante ao universo da intelectualidade, tornando-o mais capaz de compreender sua realidade e de agir no mundo que o cerca.

Voltando então ao preconceito linguístico, combatê-lo significa exatamente o quê? Trazer a norma popular para a escola a fim de fazer os alunos não zombarem, ou não fazerem “bullying” (ô, palavrinha chata!) contra o “nóis faiz” e o “nóis demo um geito”? Ora, sejamos realistas: o papel da escola é tirar o aluno da ignorância. E ignorância, aqui, não significa usar a norma popular: é exatamente não saber usar a norma padrão. Para conhecer o “nóis faiz”, o aluno não precisa ir ao colégio: isso ele vê no dia a dia, nas situações de fala dos mais diversos contextos sociais e situacionais. Na escola, deve haver espaço para o ensino gradativo da norma, que é, de fato, o que o aluno não sabe. Se é preciso conciliar o ensino da norma à aceitação de outras formas de se comunicar na língua, que se faça isso de modo a mostrar que “preconceito linguístico” é apenas um daqueles nomes politicamente corretos que tentam mascarar a realidade crua e difícil de ser mudada: nossos cidadãos estão cada vez mais afastados do conhecimento da língua, o que, entre outras razões, se justifica pela falta de boa formação dos professores de Língua Portuguesa. Sobre isso, porém, eu falo em outro post.

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