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Machado de Assis: o racista.

Noites de insônia, posto que venham acompanhadas de desconforto e sensação de cansaço, trazem consigo uma vantagem única: na ausência de sono, é possível ler páginas e páginas daquele livro que teima em avançar, porque sabe merecer leitura cuidadosa e atenta, a fim de que seja mais bem aproveitado pelo leitor. Pois iniciei recentemente a releitura de Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, e detive-me ontem em uma passagem particularmente interessante. Desta vez, prometo não rasgar de elogios nosso maior escritor (isso foi um elogio?) e procurarei deter-me em um ponto polêmico de sua escrita.

No capítulo XVIII do livro, Bentinho e Capitu estão na casa dele, quando à janela aparece um negro vendendo cocadas. Vejamos:

“Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:

— Sinhazinha, qué cocada hoje?

— Não, respondeu Capitu.

— Cocadinha tá boa.

— Vá-se embora, replicou ela sem rispidez.

— Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas.

Comprei-as, mas tive de as comer sozinho; Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância (…).”

Dois pontos me chamaram atenção. O primeiro foi a palavra empregada para se referir ao negro: preto. Preconceito racial? A segunda tem a ver com o “preconceito linguístico”. Machado de Assis faz questão de registrar o falar diverso do padrão nesta personagem, ao passo que as demais (como fica claro ao longo do livro) proferem a norma culta como se fosse ar saindo dos pulmões. Exagero? Ah, mas quem narra esse livro é Bentinho, e não Machado de Assis: Bentinho podia usar preto na referência a um negro; onde está o racismo do escritor? Recorramos a outra obra, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Logo no capítulo XI, pode-se ver o tratamento dado pelo menino Brás Cubas a um escravo, Prudêncio:

 “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!”

 Dirão: mas essa passagem revela como os negros eram tratados em casa de brancos. Certo. Então Machado de Assis só gosta de narradores racistas? Não serve isso a demonstrar o racismo na obra do escritor? Pois então, recorramos aos nomes próprios que Machado dá a seus personagens negros: João Fulo, Maria Gorda. E as pancadas sobre Lucrécia em O caso da vara? Sei não…

Ainda não se convenceu? Nem eu. Sempre tive um pé atrás quando ouvi da suposta força que Machado de Assis fazia para manter-se afastado de sua origem socioeconômica. Alguns grupos que lutam contra o racismo, com base inclusive em opiniões de críticos da época, sempre se queixaram de Machado de Assis como um negro “embranquecido”, não por ser mulato, mas por tratar em seus livros do mundo burguês, seguindo uma estética europeia, enquanto poderia usar de sua condição para enfrentar o preconceito do qual ele mesmo fora vítima tantas vezes. De fato, os negros aparecem na obra machadiana como personagens secundários, e normalmente apresentam fala grosseira, diversa da padrão, e aparecem associados a certo tom de galhofa. Racismo?

Sendo Machado de Assis um realista que busca retratar objetivamente a sociedade, parece-me natural que ele espelhe em suas obras não apenas a exclusão social dos negros pelo não domínio da norma padrão, mas ainda as condições humilhantes a que muita vez eles estavam submetidos. Entretanto, não vi até hoje – não em sua obra literária – nenhuma comprovação de que Machado fosse um defensor da causa abolicionista, quanto mais um racista (talvez queiram transformá-lo em nosso Coleman Silk…). O que vi foi um escritor profundamente atento a sua realidade, um crítico, sem dúvida, mas sem enviesamento político. Machado foi, inclusive, um crítico da abolição nos moldes em que ela foi feita: com o êxodo dos negros das sensalas às favelas. No conto Pai contra mãe, pode-se notar a rejeição de Machado à escravidão, o que seria natural em qualquer pessoa dotada de inteligência e juízo crítico. Mas essa rejeição vem não de discursos inflamados, mas da demonstração dos horrores e da desumanidade no tratamento dos negros. Levantar a bandeira de algum movimento? Felizmente, Machado não se rendeu a isso. Poderia ele com isso ter ganho maior admiração dos grupos que lutam contra o racismo velado na sociedade brasileira. Preferiu, em vez, imprimir grande força a seu estilo como escritor.

 A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres.

A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

O que nos revela tudo isto? Que Machado de Assis, a despeito de sua origem pobre e da herança negra que trazia consigo no sangue, adquiriu na sociedade brasileira do final do século 19 e início do século 20 uma posição social admirável: ascendeu socialmente, aprendeu a norma culta por meio da leitura dos clássicos e dos filólogos da época, e tornou-se tão somente o maior escritor brasileiro. E olha que não havia ninguém à época para alardear o preconceito linguístico. E olha que o Brasil era certamente mais racista e menos tolerante aos negros. E olha que nem havia cotas… Vencedor é isso aí.

Mas eis que não cumpri o prometido. Acabei tecendo elogios ao escritor que, mesmo sendo um dos escritores mais influentes de nossa literatura, a ponto de criar uma pesada sombra em todo brasileiro que se arrisca a escrever, não saiu por aí difundindo ideologias como “nós pega o peixe” ou coisas do tipo. Terá sido ele um “ideólogo da norma linguística”, ou “um conformado” com as imposições dos brancos? Menos, por favor! 

Machado de Assis não precisa de defensores, nem eu tenho a pretensão de sê-lo. Mas sabem como é: numa época em que figuras históricas (veja-se Monteiro Lobato) são tachadas disto ou daquilo tendo como base os critérios morais de nossa época, é sempre bom vigiar. Não me canso de repetir para mim mesmo que o que me enche o saco no politicamente correto não é o correto: é o politicamente.

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Arquivado em Literatura, Literatura nacional, Sociedade e Cultura

Os olhos de Capitu

Inauguro a seção de Literatura deste blogue falando de Machado de Assis. Não poderia ser diferente, tendo em vista que é, em minha opinião e na de muitos outros mais capazes de embasar a sua, o maior escritor da prosa brasileira. Machado de Assis já nem é mais um escritor: é uma instituição. Falar mal dele, por exemplo, exige argumentos quase impossíveis de conseguir. Mas não é por isso que optei por falar bem do Bruxo (Bruxo do Cosme Velho é sua mais conhecida antonomásia). Tenho o hábito de, todo ano, reler alguma de suas maiores obras, quando não me enveredo, numa noite ou em outra, por seus contos. Neste ano, escolhi Dom Casmurro, e ainda estou no início da releitura.

Fico realmente admirado e impressionado com a capacidade que Machado de Assis tem de ser conciso e poético, o que é uma reunião de atributos raríssima nos prosadores. Particularmente no Brasil, nossos escritores têm o péssimo hábito de, no afã de construírem passagens estéticas, enveredarem-se em adjetivações e metáforas desnecessárias, as quais, quando lemos, parecem-nos nitidamente desnecessárias à sobrevivência do texto. Por outro lado, há aqueles que privilegiam a objetividade, a concisão, o que gera uma literatura que busca sua estética exatamente afastando-se daquilo que aos clássicos pareceria belo. Machado de Assis reúne ambas as características de modo invejável. Os capítulos de seus romances são breves, mas ao mesmo tempo densos, repletos daquele humor ácido, daquela visão pessimista do homem e das relações humanas: alguns o chamariam realista, mas Machado é “o Polígrafo inclassificável”, e conferir-lhe rótulos é subestimar completamente sua estética única.

Logo no capítulo segundo de Dom Casmurro, o narrador busca nos situar quando às razões que o levaram a narrar sua história. Em certa passagem, ele afirma: “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos”. Essa passagem me chamou a atenção como não o fez das outras duas vezes que li o livro – e é exatamente por isso que tenho o hábito de reler a obra machadiana. Quando se refere a “estudar a geologia dos campos santos”, o autor mistura, de modo inesperado, ciência e morte, resultando num eufemismo tão gelado quanto a própria ideia de morrer. A simplicidade da construção é impressionante, e sinceramente não consigo entender aqueles que classificam Machado como um escritor difícil, complicado. Complexo, talvez, dado o enorme poder facilmente verificado na simplicidade de sua sintaxe. Neste ponto de vista, sua obra é sem igual: qualquer pessoa interessada no estudo das estruturas da língua deverá recorrer a Machado, que as domina de forma ímpar.

Neste momento da leitura, acabo de reler o capítulo XXXII, Olhos de ressaca, que sempre foi, a meu ver, o melhor do livro. Nele, pode-se ler a passagem clássica da comparação entre os olhos de Capitu, que José Dias definira em capítulos anteriores como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, e a vaga marinha. Melhor deixar o autor falar por si:

Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

É realmente de impressionar. Se todas as comparações de nossa literatura tivessem essa profundidade, não tenho dúvidas de que teríamos já produzido outros escritores geniais. Alguém conhece expressão metafórica da prosa mais popularizada do que “olhos de ressaca”? Tudo bem, alguns a usam pensando que ela se refere a uma pessoa acordando depois de uma noite de bebedeira. Ainda assim, a metáfora está na boca do cidadão comum.

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