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Só?

Hoje estou sem vontade de postar. Por isso acho que vou escrever só para ver o que sai.

Recentemente publiquei um post sobre os filmes de Richard Linklater, Antes do amanhecer e Antes do pôr do sol, e hoje me lembrou outro filme, que caminha no mesmo sentido, embora os meios sejam distintos. Trata-se de Apenas uma vez (Once, de John Carney, 2007), um romance daqueles raros de encontrar no cinema: saem adolescentes com rostos e corpos de modelo, entram pessoas maduras, de tipo físico normal; sai a idealização da paixão desenfreada, entra o desenvolvimento casual de uma relação madura; sai a trilha sonora melosa a pontuar as cenas visando às lágrimas do espectador, entra a trilha integrada ao enredo e às personagens.

Pois é exatamente na música que reside a força de Once (acho o título original mais rítmico, pois a tradução nacional não consegue manter a força de uma única palavra e ainda acrescenta um desnecessário apenas). Mas tudo bem: falemos do filme. Once conta a história de dois jovens adultos, o cara e a garota (as personagens não têm nome), que vivem vidas quase marginais na Dublin dos dias de hoje: ele ajuda o pai numa assistência técnica de aspiradores de pó, e se apresenta com seu violão cantando nas ruas da cidade em troca de algumas moedas; ela é uma imigrante tcheca que vive de bicos, vendendo flores, fazendo faxinas, e cuida da mãe também imigrante e da filha de tenra idade – nos momentos livres, vai a uma loja de aparelhos musicais a fim de tocar um pouco de piano.

Os dois se encontram nas ruas mesmo, quando ela resolve se apresentar a ele após repetidamente ouvi-lo cantar. Se, nos filmes de Linklater, o diálogo sustentava a relação do casal, em Once vemos o relacionamento acontecer por causa e por meio da música. Um passa a conhecer a desgraça amorosa da vida do outro ouvindo suas canções: o cara fora abandonado por uma namorada que partira a Londres; a garota vivia ainda um casamento a distância com seu marido tcheco, aparentemente desinteressado por ela. Se a história parece condenada a cair num amontoado de clichês de filmes românticos, o diretor sabe muito bem como fazer para que isso não aconteça: e nada melhor para aumentar a tensão do amor do que sua não consumação; e nada melhor para também aumentar essa tensão o fato de cada música ser apresentada no momento certo, revelando como aquelas duas pessoas sofridas, de fato, se merecem.

O cara, às vezes, parece interessado na língua da garota, ou melhor, no idioma. Pergunta-lhe uma palavra ou outra ao longo do filme, e há uma cena em particular cujo significado é importantíssimo na história. Pergunta a ela se ela ama o marido ainda, e quer saber como se faz essa pergunta em tcheco. Ela diz-lhe: Noor-esh-ho? Ele então lhe faz a pergunta, e ela: Noor-ho-tebbe. Não há legendas nesta parte, nem para os espectadores de língua inglesa, nem para nós (felizmente), dada a intenção do diretor de nos colocar na mesma situação que o cara. Ainda bem que essa tradução pode ser encontrada aqui. O desfecho da história fica para o filme contar, não para o aspirante a blogueiro que ora escreve.

Prefiro concentrar minha escrita nas reflexões que o filme propicia. Once? Uma vez? Por que esse título? Por um tempo cheguei a cogitar a hipótese de que a palavra se referisse a um fato específico do filme (que não posso contar para não estragar a surpresa de quem não o viu), mas tendo-o revisto recentemente, cheguei a uma conclusão mais sólida e, acredito, mais próxima da verdade (da minha). O filme é uma fábula realista: sem fantasiar ou deturpar a realidade conta aquela história de amor que todos nós gostaríamos de ver ou viver, mas de uma forma que não nos satisfaria. Sei que é um clichê dizer isso, mas às vezes os lugares-comuns explicam melhor do que teorias falsamente elaboradas: não há previsibilidade em alguns dos fatos mais importantes da vida, pois eles simplesmente acontecem. Acho que o filme pega bem essa ideia, e constrói uma das histórias de amor mais bonitas da década de 2000, e, ao mesmo tempo, uma das mais cruéis. Once é a primeira palavra das fábulas em inglês, que se iniciam com o Once upon a time… Acho que o filme é isso: o conto de fadas que não quer se alimentar de falsas expectativas. Então será que o título aduz à ideia de que um amor como esse só ocorre uma única vez? Acho que não, e por isso creio que o título original não faça menção a nenhum apenas.

E é aí que entra a ideia de satisfação. Duas músicas do filme tratam do assunto: uma delas diz “If you want me, satisfy me”; a outra traz “I’m letting myself down by satisfying you”: ou seja, enquanto em uma delas a satisfação do outro possibilita o amor, na outra ela destrói quem tenta satisfazer. Acho que as relações têm um pouco disso mesmo: elas se consomem para que possam sobreviver, sem perceber que, consumindo-se, elas se esvaem.

É impossível satisfazer outra pessoa, cada vez me convenço mais disso. Aquilo que se permite uma vez torna-se pouco, e precisa ser novamente permitido, e novamente, e novamente. Talvez o filme traga uma visão mais possível do amor entre um homem e uma mulher. Uma vez. Só?

 

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