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Sobre petistas e petralhas

Paixões políticas à parte, é bom começar o post esclarecendo: nem todo petista é petralha; nem todo petralha é petista. Como se vê, vou na contramão das simplificações que esquerda e direita normalmente costumam propor. Política é coisa complexa, e jamais pode ser reduzida ao maniqueísmo. Não se trata de um jogo do bem contra o mal, em que o bem inevitavelmente triunfará, e porá fim às maldades do lado oposto. Política envolve projetos, ideias, deliberação sobre essas ideias, divergências quanto a elas, o que é bom, pois política (embora venha da palavra grega para cidade, polis) lembra-me o poli-, de pluralidade. De fato, não consigo conceber política como ausência do plural, do diferente, do numeroso – sem isso, mais apropriada seria a denominação apolítica, em seu sentido etimológico, inadequado para os negócios públicos, ou monolítica, se ficarmos com o trocadilho. Mas política não é só isso: é também um jogo de poder, a “arte do possível”, não do justo, não do bom. Assim, seja eu um petista, um tucano, um comunista, um liberal, um ultraliberal, não posso jamais querer simplificar o jogo político num jogo em que há, de um lado, os interesses puros e castos e, de outro, os interesses escusos, obtusos. Porque não é assim que se faz política.

Por tudo isso, qualquer simplificação ou enquadramento de rótulos como “petralha”, “tucanalha” é infantil por natureza. Mas isso não impede que essas denominações apareçam para aquecer o pobre debate político que hoje se trava em nosso país. O PT não é o demônio, nem o santo. Qualquer tentativa de afirmar o contrário carece de seriedade. E é exatamente aqui que eu chego ao ponto de partida deste post. Os próximos dois parágrafos são uma breve retrospectiva histórica, e podem ser pulados sem comprometer o resultado do post, para quem tiver pressa.

Em 1989 (eu tinha dez anos, mas me lembro bem), fui a todos os comícios de presidenciáveis que houve em minha cidade: naquela época eram showmícios, com direito a concertos de artistas sertanejos, pagodeiros, entre outros, depois do discurso inflamado. Lembro-me da admiração pela história de Lula e por seu projeto de governo. O operário que venceu a censura, que subverteu a “lógica do patrão” na sociedade brasileira e então se punha como presidenciável, “sapo barbudo”. Lula foi derrotado em 1989 (no segundo turno, por Fernando Collor de Melo), 1994, 1998 (em ambas, por Fernando Henrique Cardoso, no primeiro turno) e, finalmente, em 2002, impôs derrota ao candidato da situação, José Serra: Lula teve meu voto.

Votei em Lula porque, desde criança, vi aquele discurso da inclusão social, da diminuição das desigualdades sociais e do monopólio da ética ser vencido, derrotado, pelo velho discurso de quinhentos anos. Chegara a hora de dar chance ao novo, ao negro, à mulher, ao operário. Negra, mulher, de origem pobre, Benedita da Silva foi nomeada ministra. E uma das primeiras a capitular: minha primeira desilusão. Mas todo mundo sabe: a desilusão para a maior parte dos petistas ocorreu em 2005, quando do escândalo do mensalão. Lembro-me que minha reação diante daquelas denúncias, a cada dia uma nova, era de negação. “Não pode ser. Não. Deve ter havido uma ou outra coisa, mas não nessa dimensão que estão falando.” A negação é talvez a etapa mais difícil no lidar com a morte, com o luto e equivalentes (se você já é ou já foi petista desiludido, veja em que fase você está no quadro ao final do post).

Creio que a desilusão com o petismo não tenha sido só minha, mas de vários sonhadores. E antes que eu seja acusado de romântico por ter acreditado numa real mudança na política brasileira com a escalada do PT ao poder, deixe-me esclarecer um fato: é evidente que eu tinha consciência de que haveria corrupção no governo petista. Mas a questão foi além: o que se viu não foi só corrupção: foi corrupção e descaso; foi corrupção e galhofa. Num primeiro momento, Lula se disse traído, apunhalado pelas costas; depois, quando a poeira se assentou, passou a afirmar que o mensalão não existira, que fora invenção da imprensa golpista. Delúbio Soares (este mesmo que foi recebido de volta ao PT com churrasco recentemente) chegou a afirmar que o mensalão se tornaria “piada de salão”. E é aqui que reside de fato minha rejeição ao petismo. Não fui daqueles que, diante do mensalão, passou a enxergar o PSDB como um estandarte da ética. Minha mudança de corrente política se deu após esse escândalo, já encontrando seus germes antes dele.

Passei a olhar o petismo de forma desconfiada, em primeiro lugar, quando da expulsão de parlamentares que se recusavam a votar a favor de certas políticas do governo (Luciana Genro, Heloísa Helena…). Não que eu simpatizasse com as posições de tais parlamentares, mas, a meu ver, um partidário não deverá estar submetido às vontades do governo, mas às vontades do cidadão que o elegeu. Posteriormente ao mensalão, começaram as atitudes mais abomináveis do petismo: a desqualificação da denúncia, a troça feita à imprensa, o desrespeito à oposição.

Petistas e partidários chegaram a cunhar um termo para desqualificar toda e qualquer denúncia feita pela imprensa: “partido da imprensa golpista” (PIG), técnica chavista de desrespeito ao pluralismo pelo ataque sem fundamento. No acrônimo PIG, há nítida referência a porco, mas permitam-se uma ressalva: o PT está mais próximo dos porcos de Orwell (A revolução dos bichos) do que a imprensa. O que interessa de fato é que as denúncias passam a ser vistas como mentira, independentemente de seu conteúdo. Dilma é herdeira da técnica: na campanha presidencial, chegou a chamar de mentiras as acusações contra a então ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, a qual não se sustentou no posto nem mesmo duas semanas após as primeiras evidências de crime no ministério. Então, tudo que vier de Veja, Globo, Folha de São Paulo, independentemente de ser verdade, é negado pelo petismo de antemão com uma simples sigla: PIG. O curioso é que essas pessoas não têm memória: na década de 1990, Veja estampou centenas de capas denunciando casos de corrupção no governo FHC, mas nunca vi o ex-presidente levantar-se contra a “revistinha” (como Lula chamou Veja), muito menos o partido tucano difundir a zombaria à imprensa, instrumento vital ao controle dos atos de nossos governantes, e essencial à democracia.

Posteriormente, Lula chegou a defender o extermínio do DEM, ex-PFL. Confesso que uma de minhas resistências ao PSDB foi o fato de este ter se aliado ao que há de mais repugnante na história recente da política brasileira: o DEM só nos últimos tempos se tornou “democrata” (sei lá o que esta palavra significa para eles), pois sua história revela o contrário. Mas meu repúdio a certos setores ultraconservadores e oligárquicos representados pelo DEM jamais me fez sentir uma vontade de exterminá-lo, de execrá-lo da política, como propôs o popular ex-presidente. É deste discurso autoritário que tenho fugido.

O que nos leva ao conceito de petralha. A palavra foi cunhada pelo jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo, numa contração de petista com metralha (referência aos bandidos de Patópolis, os irmãos Metralha). A palavra chega a constar no dicionário Sacconi, embora eu não tenha nenhuma admiração por este gramático e dicionarista. No verbete, pode-se ler: “pessoa que, sem nenhum escrúpulo, não vacila em cometer todo e qualquer ato marginal à lei, como usurpar, mentir, extorquir, ameaçar, chantagear, roubar, corromper, ou que defende com ardor ladrões, corruptos, usurpadores, mentirosos, extorsionários, chantagistas, etc., que, porém, pousa como gente de bem”.

Isto esclarecido, pode-se ver claramente por que nem todo petista é petralha, e por que nem todo petralha é petista, embora, etimologicamente, haja referência ao petismo. O que nos leva a duas situações dentro do petismo: há petistas petistas e há petistas petralhas. Tenho amigos do primeiro tipo que não se incomodam com a denominação, porque sabem que ela não lhes diz respeito. Mas tenho conhecidos (amigos não!) petralhas, os quais religiosamente defendem Delúbio e quadrilha ltda. com tanto ardor, que eu percebo serem eles portadores de enfermidade psiquiátrica grave, ainda não catalogada no CID. Na democracia, há espaço para tucanos, petistas, democratas, comunistas, socialistas. Mas, por favor, não há espaço para petralhas, sejam eles de que partido forem. As críticas e as denúncias não irritam os petistas, pois estes sabem que criticar e denunciar são atos inerentes ao jogo democrático. Por isso, tenho certeza de que esse post não irritará a nenhum petista. Já aos petralhas…

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