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Machado de Assis: o racista.

Noites de insônia, posto que venham acompanhadas de desconforto e sensação de cansaço, trazem consigo uma vantagem única: na ausência de sono, é possível ler páginas e páginas daquele livro que teima em avançar, porque sabe merecer leitura cuidadosa e atenta, a fim de que seja mais bem aproveitado pelo leitor. Pois iniciei recentemente a releitura de Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, e detive-me ontem em uma passagem particularmente interessante. Desta vez, prometo não rasgar de elogios nosso maior escritor (isso foi um elogio?) e procurarei deter-me em um ponto polêmico de sua escrita.

No capítulo XVIII do livro, Bentinho e Capitu estão na casa dele, quando à janela aparece um negro vendendo cocadas. Vejamos:

“Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:

— Sinhazinha, qué cocada hoje?

— Não, respondeu Capitu.

— Cocadinha tá boa.

— Vá-se embora, replicou ela sem rispidez.

— Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas.

Comprei-as, mas tive de as comer sozinho; Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância (…).”

Dois pontos me chamaram atenção. O primeiro foi a palavra empregada para se referir ao negro: preto. Preconceito racial? A segunda tem a ver com o “preconceito linguístico”. Machado de Assis faz questão de registrar o falar diverso do padrão nesta personagem, ao passo que as demais (como fica claro ao longo do livro) proferem a norma culta como se fosse ar saindo dos pulmões. Exagero? Ah, mas quem narra esse livro é Bentinho, e não Machado de Assis: Bentinho podia usar preto na referência a um negro; onde está o racismo do escritor? Recorramos a outra obra, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Logo no capítulo XI, pode-se ver o tratamento dado pelo menino Brás Cubas a um escravo, Prudêncio:

 “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!”

 Dirão: mas essa passagem revela como os negros eram tratados em casa de brancos. Certo. Então Machado de Assis só gosta de narradores racistas? Não serve isso a demonstrar o racismo na obra do escritor? Pois então, recorramos aos nomes próprios que Machado dá a seus personagens negros: João Fulo, Maria Gorda. E as pancadas sobre Lucrécia em O caso da vara? Sei não…

Ainda não se convenceu? Nem eu. Sempre tive um pé atrás quando ouvi da suposta força que Machado de Assis fazia para manter-se afastado de sua origem socioeconômica. Alguns grupos que lutam contra o racismo, com base inclusive em opiniões de críticos da época, sempre se queixaram de Machado de Assis como um negro “embranquecido”, não por ser mulato, mas por tratar em seus livros do mundo burguês, seguindo uma estética europeia, enquanto poderia usar de sua condição para enfrentar o preconceito do qual ele mesmo fora vítima tantas vezes. De fato, os negros aparecem na obra machadiana como personagens secundários, e normalmente apresentam fala grosseira, diversa da padrão, e aparecem associados a certo tom de galhofa. Racismo?

Sendo Machado de Assis um realista que busca retratar objetivamente a sociedade, parece-me natural que ele espelhe em suas obras não apenas a exclusão social dos negros pelo não domínio da norma padrão, mas ainda as condições humilhantes a que muita vez eles estavam submetidos. Entretanto, não vi até hoje – não em sua obra literária – nenhuma comprovação de que Machado fosse um defensor da causa abolicionista, quanto mais um racista (talvez queiram transformá-lo em nosso Coleman Silk…). O que vi foi um escritor profundamente atento a sua realidade, um crítico, sem dúvida, mas sem enviesamento político. Machado foi, inclusive, um crítico da abolição nos moldes em que ela foi feita: com o êxodo dos negros das sensalas às favelas. No conto Pai contra mãe, pode-se notar a rejeição de Machado à escravidão, o que seria natural em qualquer pessoa dotada de inteligência e juízo crítico. Mas essa rejeição vem não de discursos inflamados, mas da demonstração dos horrores e da desumanidade no tratamento dos negros. Levantar a bandeira de algum movimento? Felizmente, Machado não se rendeu a isso. Poderia ele com isso ter ganho maior admiração dos grupos que lutam contra o racismo velado na sociedade brasileira. Preferiu, em vez, imprimir grande força a seu estilo como escritor.

 A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres.

A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

O que nos revela tudo isto? Que Machado de Assis, a despeito de sua origem pobre e da herança negra que trazia consigo no sangue, adquiriu na sociedade brasileira do final do século 19 e início do século 20 uma posição social admirável: ascendeu socialmente, aprendeu a norma culta por meio da leitura dos clássicos e dos filólogos da época, e tornou-se tão somente o maior escritor brasileiro. E olha que não havia ninguém à época para alardear o preconceito linguístico. E olha que o Brasil era certamente mais racista e menos tolerante aos negros. E olha que nem havia cotas… Vencedor é isso aí.

Mas eis que não cumpri o prometido. Acabei tecendo elogios ao escritor que, mesmo sendo um dos escritores mais influentes de nossa literatura, a ponto de criar uma pesada sombra em todo brasileiro que se arrisca a escrever, não saiu por aí difundindo ideologias como “nós pega o peixe” ou coisas do tipo. Terá sido ele um “ideólogo da norma linguística”, ou “um conformado” com as imposições dos brancos? Menos, por favor! 

Machado de Assis não precisa de defensores, nem eu tenho a pretensão de sê-lo. Mas sabem como é: numa época em que figuras históricas (veja-se Monteiro Lobato) são tachadas disto ou daquilo tendo como base os critérios morais de nossa época, é sempre bom vigiar. Não me canso de repetir para mim mesmo que o que me enche o saco no politicamente correto não é o correto: é o politicamente.

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Spooks!

Aqueles que me seguem pelo Twitter sabem como eu resisto a essa tendência de patrulhamento linguístico que se convencionou chamar de “politicamente correto”, que a partir de agora vou chamar de PC em algumas situações (nenhuma referência ao Partido Comunista). Seus defensores alegam que a resistência a ele consiste na tentativa de conservação de velhos preconceitos, como se o PC viesse magicamente combatê-los por meio da linguagem.

Embora só hoje a expressão tenha se consolidado idiomaticamente, o método de substituir expressões carregadas de negatividade por outras de teor mais positivo é velho, embora só ultimamente ele tenha se arrogado fins mais “nobres”. Tome-se como exemplo a expressão “solução final para o problema judeu” (Endlösung der Judenfrage, no original alemão): num primeiro olhar, assemelha-se a um plano de levar as Doze Tribos de Israel de volta à Terra Santa. Nada disso: como todos sabem, a expressão refere-se ao plano de extermínio dos judeus na Europa, plano este executado por Hitler e seu “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” (bonito nome de partido, não?). Mais curiosa ainda era a inscrição posta na entrada das câmaras de gás dos campos de concentração: Bad und Desinfektion (Banho e Desinfecção). Acreditem-me: exemplos como esses não faltam na desarmônica e politicamente incorreta história da humanidade.

Para o mal ou para o bem, é perfeitamente possível mascarar as ações mais diversas do ser humano por meio de expressões eufemísticas, ou politicamente corretas, como as denominariam hoje. Mas é preciso desde logo fazer uma distinção: eu sei que o PC atua num sentido (pelo menos seu fim último é o de diluir e exterminar preconceitos, não pessoas) diverso daquele em que caminhavam as expressões eufemísticas nazistas. O ponto que vejo em comum nessas situações é que, em ambas, não se denomina o conceito por seu próprio nome. Foi Liev Tolstói quem, em um de seus diários, acentuou a importância de se seguir esse preceito: chamar as coisas pelo nome. Não me esqueço de Alex Supertramp aprendendo isso pouco antes de morrer em Na natureza selvagem (Into the wild, de Sean Penn, 2007). Estivesse vivo, o jovem certamente reconheceria na paranoia que tomou conta de seu país uma violação ao princípio tolstoiano. Pois, às vezes, é importante sim que se chamem as coisas pelo nome para que a realidade possa vir à tona, e aí sim, os preconceitos possam ser combatidos.

O politicamente correto, supõe-se, é uma reação ao conservadorismo que se enraíza na sociedade por meio das formas mais cruéis de preconceito. Pois eu vejo nele uma forma não de trazer à tona preconceitos velados, mas exatamente de velar preconceitos trazidos à tona nas mais diversas situações do cotidiano. Podem-se usar as palavras com intenções distintas, e quem conhece a diferença entre Semântica e Pragmática sabe que, ao passo que a primeira relaciona o signo com seu objeto de significação, a segunda o relaciona com o sujeito que faz uso desse mesmo signo, e por isso tenta captar as intenções impressas por esse sujeito no signo que ele emprega. Para sair da abstração, a palavra negro tem intenções distintas nas sentenças “Saia daqui, seu negro!” e “Os negros no Brasil ainda lutam contra o racismo”, e acredito que sua substituição por afro-brasileiro, tanto na primeira quanto na segunda sentença, não alteraria o significado que, pragmaticamente, o signo assume em cada um dos casos. Mesmo palavras que as pessoas tomam como carregadas de preconceito, como “veado”, podem ser usadas para expressar carinho em relação a um amigo. Já vi, em várias situações, amigos cumprimentarem-se, abraçarem-se, dizendo “E aí, seu veado! Há quanto tempo!”. Acho que ninguém saiu ofendido dessas situações, ao contrário. A intenção preconceituosa, mais do que uma palavra ou uma perífrase, é que deve ser combatida.

O fato é que a praga do PC chegou por aqui, e chega-se a exageros absurdos como o da tentativa de proibir uma obra de Monteiro Lobato nas escolas pelo suposto racismo encontrado pelos patrulheiros da comunicação. “Isso não se diz”, “essa palavra é carregada de preconceito” são afirmações generalistas demais no campo da linguagem, que é polissêmica por natureza, que não pode ser reduzida a intenções negativas supostas em todas as situações em que é empregada. Ultimamente, até a expressão “erro de português” tem caído nas mãos dos defensores mais enérgicos do PC: não é “erro”, é “tentativa de acerto”, já li em livros de Marcos Bagno (Preconceito linguístico e Dramática da Língua Portuguesa). Pelo amor de Deus, até onde isso vai parar? Será que não há uma Endlösung para tanto blablablá?

Toda vez que falo do PC, eu me lembro do pobre Coleman Silk. Acho que nenhum homem foi mais desgraçado que ele em matéria de vítima desse fenômeno linguístico. A história de Coleman é fantástica. Negro de pele muito clara, cresceu na América do pós-guerra cercado das mais terríveis manifestações de preconceito contra sua cor (ou condição de pele?). Ao entrar na Marinha, percebeu que muitos não o julgavam por negro, embora notassem nele traços distintos do americano branco de linhagem europeia, caucasiana, etc. Com base nisso, renegou a família e seu passado, e assumiu-se judeu: a mentira colou, e ele se tornou respeitável professor universitário (a família jamais soube dele novamente). No auge da histeria do PC nos Estados Unidos (aquela mesma em que uma felação no Salão Oval quase derrubou um presidente), Coleman Silk teve sua vida desgraçada: ao notar que dois de seus alunos nunca vinham à aula, resolveu perguntar “Essas pessoas existem ou são… spooks?”. Pois os alunos eram negros, e Coleman Silk foi ironicamente destruído pelo poder de uma palavrinha: spook, que em inglês pode ser tanto fantasma (acepção empregada pelo professor no contexto) quanto forma pejorativa para se referir a negro. Pois o negro autorracista, Silk, perdeu cargo, prestígio, esposa, tudo por causa de uma maldita polissemia, e do PC, claro: o racismo dele em relação a si mesmo, por ironia do destino ou do escritor?, volta para acertar contas no final de sua vida. Depois disso, ele, um erudito, envolve-se com uma mulher analfabeta, faxineira da universidade em que trabalhava, causando mais um escândalo em sua vida: ah, o Viagra!

Coleman Silk não existiu de verdade. Minto, existiu sim. É personagem de ficção de um belíssimo livro de Philip Roth, A marca humana. Quem há de dizer que os personagens de ficção não existem? Tanto existem que cá estou eu falando do pobre homem. Nesta obra, Roth ataca o politicamente correto com todas as suas forças literárias (e não são poucas), mostrando um ambiente kafkiano de linguagem a cercar os homens às vésperas do século 21. Como tudo chega atrasado por aqui, parece que só agora começamos a questionar os limites do politicamente correto. E, como esse tema rende, vou terminar esse post citando algumas das passagens mais fantásticas do livro, e continuarei a discussão sobre o PC e o patrulhamento da linguagem em outra oportunidade:

 “Assim, por que motivo, tendo transformado minha experiência de isolamento radical numa vida solitária de grande riqueza – por que motivo, sem aviso prévio, comecei a sentir solidão? O que me estaria fazendo falta? O que passou, passou. Não há como relaxar o vigor, voltar atrás nas renúncias. De que afinal eu sentia falta? Muito simples: daquilo que havia passado a me inspirar aversão. Daquilo que eu havia abandonado. Da vida. Do envolvimento com a vida.”

“Você tira a roupa, vai para a cama com alguém, e é justamente nesse momento que tudo aquilo em que você se esconde, sua particularidade, seja lá qual for, seja lá como estiver codificada, é descoberto, e é esse o motivo da timidez, do medo que todo mundo sente. Naquele lugar louco e anárquico, quanto de mim está exposto, quanto de mim está a descoberto? Agora eu sei quem você é. Vejo agora seus músculos de negro.

“Se o Clinton tivesse enrabado essa mulher, ela era bem capaz de ficar de bico calado. O Bill Clinton não é esse machão todo que dizem que ele é. Se ele vira a tal estagiária de bruços lá no salão Oval e enfia no cu dela, nada disso acontecia.”

“Nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excremento, esperma – não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. (…) Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza.”

 Sério, não vou postar todas, porque são inúmeras, mas esta última dá bem a ideia do que muita gente ignora. Nem que fosse eventualmente, uma vez que lhes interessam as coisas do homem, os cientistas sociais deveriam cuidar – nos momentos em que não estão teorizando sobre fatos e ideias, nos momentos de lazer – mais da literatura, investigá-la, clarear suas ideias com um pouco de ficção, porque, embora a arte literária não tenha a pretensão de ser científica, ela tem pelo menos a qualidade de ser humana.

 

Uma emenda ao post, dado o comentário negativo que recebi. Eu não estou defendendo que se possa usar a linguagem para ofender outrem. Só estou dizendo que não é a linguagem que é responsável pela visão de mundo de seu usuário. Essa visão se manifesta PELA linguagem e não POR CAUSA dela. Assim, os preconceitos se combatem nas ações, pela educação, e não podando esta ou aquela palavra da boca dos falantes. Despidos de preconceitos, eles saberão como usar a linguagem com a forma adequada aos fins que buscam atingir. Quando citei o fato de chamar as coisas por seu nome, quis apenas dizer que cada falante entende ser esta ou aquela palavra a mais adequada para certo contexto, e é claro que essa escolha pode revelar preconceitos. Não é a palavra, porém, que traz o preconceito: ela é apenas o meio pelo qual ele se manifesta. Sem mimimi.

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É nóis!

Desde que a Sociolinguística marxista ganhou adeptos dos mais diversos níveis de liberalidade na língua, a expressão “preconceito linguístico” parece ter invadido os cursos de Letras como se fora grande novidade, importante descoberta da ciência sociológica da língua, que enxerga nesta mais um instrumento de dominação ideológica, política, cultural das classes privilegiadas em relação às classes menos abastadas. Em outras palavras, a língua seria usada como mais um instrumento de exclusão na eterna luta de classes que caracteriza o convívio social humano. Digo isso com todo o respeito a essa ciência ideológica, pois concordo com algumas de suas premissas maiores, embora não apoie as menores, nem tampouco as conclusões equivocadas a que seu raciocínio chega.

De que há certa razão quanto ao fato de a língua ser instrumento de poder, não há dúvidas. Como toda linguagem, uma língua é um conjunto de códigos organizados de tal forma que possibilite a comunicação entre os indivíduos, mas também como toda linguagem, o domínio destes códigos pode conferir mais ou menos vantagem aos indivíduos, a depender do grau de conhecimento que eles têm desse instrumento. Desta forma, se, para criar um software, é necessário o domínio específico desta ou daquela linguagem de programação, um programador será mais ou menos capacitado, a depender de seu conhecimento maior ou menor destas linguagens. Analogamente, nas mais diversas situações sociais de comunicação, um falante se sairá melhor ou pior também a depender de seu maior ou menor domínio das possibilidades que seu idioma lhe oferece.

Até aí, tudo bem. Os homens têm aptidões distintas, e não se requererá deste ou daquele homem o mesmo nível de instrução quanto ao idioma vernáculo, que poderá interessar mais a um que a outro. Daí a se concluir, então, que há elitismo no estudo da língua é um passo enorme.

É fato que as ciências matemáticas são fundamentais à compreensão dos fenômenos da natureza, pois estes são descritos e teorizados graças à tradução feita por alguns indivíduos (raríssimos), que conseguem, da observação dos fenômenos naturais, construir modelos teóricos que expliquem tais fenômenos e nos permitam prever a ocorrência de outros. Devido a isso, o conhecimento humano serve, entre outros fins, para possibilitar ao homem um maior controle do mundo que o cerca ou, já que o controle pleno das probabilidades é impossível, ao menos atenuar a sensação de desamparo ou de incerteza quanto aos acontecimentos naturais. E também é fato que o domínio dessas ciências matemáticas é difícil, tanto que boa parte dos alunos dos ensinos fundamental e médio treme diante da mera cogitação de ser avaliada em seu conhecimento algébrico, geométrico, aritmético. Diante de tal dificuldade, o que podemos fazer? Resolver as equações de modo alternativo? Propor soluções que tragam resultado distinto do que deve ser? Evidente que não.

Mas alguns dirão que a comparação entre ciências matemáticas e ciência linguística é descabida, visto que aquelas apresentam um grau de exatidão que esta não tem. A língua não tem a pretensão nem a finalidade de ser imutável ou exata, e atende às necessidades dos falantes. Ora, é evidente que, sendo a língua meio para se atingirem fins (interação social, comunicação), não é a língua, em si mesma, um fim. Quando dizemos que o estudo da língua portuguesa no colégio deve ser feito porque a língua é um fim em si, agimos como pessoas estúpidas que não compreendem a que serve, de fato, o fenômeno linguístico. Não sendo a língua, então, um fim em si mesmo, e sendo meio, é justo adaptar esse meio em razão dos fins que se deseja alcançar. Por isso, a língua é mutável por natureza, e qualquer tentativa de frear sua evolução é inócua e vã.

Mas se a língua é mutável, então qual a necessidade de haver uma norma padrão do idioma, ou seja, um conjunto de regras que deve ser conhecido pelos falantes? A norma serve exatamente para diminuir o grau de incerteza quanto às construções da língua: ela nos dá a segurança de que, quando partirmos à análise de qualquer texto escrito em nosso idioma, poderemos reconhecer suas construções e nos identificarmos com elas, a ponto de conseguirmos compreender as mensagens que um sujeito enunciador, do presente ou do passado, de nossa cidade ou de outra, nos deseja transmitir. Por conseguinte, o estudo da norma serve, tão somente, para ampliar as possibilidades comunicativas, não para restringi-las. É ponto pacífico que qualquer cidadão brasileiro capaz de falar fará uso da língua e comunicar-se-á por meio dela. Mas quantos cidadãos estão excluídos dos processos comunicativos mais complexos, como aqueles da arte literária, do jornalismo crítico, das ciências sociais, dos textos legais, exatamente por não dominarem a norma em que são escritos tais textos?

Qual é nosso papel diante dessa exclusão? A meu ver, há duas formas para solucionar o problema. A primeira delas se daria pela educação, e pelo ensino da norma padrão (empregada nos textos mais complexos) aos cidadãos que, excluídos dela, têm sua cidadania restringida. A segunda seria adaptar esta mesma norma, de modo a democratizá-la: assim, não se diria que “menas gente” é forma menos nobre que “menos gente”, pois não caberiam juízos de valor em relação aos fatos da língua. Disso resultaria que ambas as formas seriam admitidas, o que traria mais pessoas ao grupo dos que dominam essa simples construção normatizada pela Gramática.

Ainda que pareça bem intencionada a segunda solução, ela me parece covarde, acomodada, pois não ataca o problema em sua base. Apenas tenta podar galhos apodrecidos, enquanto as raízes continuam sugando seiva demasiadamente bruta e contaminada. É como criar um “sistema de cotas” na língua, o qual permitiria que aqueles que não tiveram oportunidade de aprender o padrão-língua passassem a ser inseridos nele, empurrados por certa “ajudinha”, a qual nivela por baixo os falantes, a pretexto de se introduzir um sistema plural e democrático. A democracia passa a ser entendida como “tudo é correto”, o que deturpa o ensino do idioma, pois, ao contrário disso, a escola deve democratizar o acesso à norma, com professores que tenham domínio dela e que saibam transmiti-la.

Quando ensina a norma padrão, o professor de Língua Portuguesa não faz apologia a seu uso em todas as situações da fala. Ensinar a norma é um modo de se trazer o estudante para o universo dos que dominam as construções linguísticas mais elaboradas da escrita. Entender de pleno um conto de Machado de Assis, um romance de Graciliano Ramos, um ensaio sobre artes ou um artigo de opinião, o enunciado de leis e sentenças judiciais; toda essa compreensão traz o estudante ao universo da intelectualidade, tornando-o mais capaz de compreender sua realidade e de agir no mundo que o cerca.

Voltando então ao preconceito linguístico, combatê-lo significa exatamente o quê? Trazer a norma popular para a escola a fim de fazer os alunos não zombarem, ou não fazerem “bullying” (ô, palavrinha chata!) contra o “nóis faiz” e o “nóis demo um geito”? Ora, sejamos realistas: o papel da escola é tirar o aluno da ignorância. E ignorância, aqui, não significa usar a norma popular: é exatamente não saber usar a norma padrão. Para conhecer o “nóis faiz”, o aluno não precisa ir ao colégio: isso ele vê no dia a dia, nas situações de fala dos mais diversos contextos sociais e situacionais. Na escola, deve haver espaço para o ensino gradativo da norma, que é, de fato, o que o aluno não sabe. Se é preciso conciliar o ensino da norma à aceitação de outras formas de se comunicar na língua, que se faça isso de modo a mostrar que “preconceito linguístico” é apenas um daqueles nomes politicamente corretos que tentam mascarar a realidade crua e difícil de ser mudada: nossos cidadãos estão cada vez mais afastados do conhecimento da língua, o que, entre outras razões, se justifica pela falta de boa formação dos professores de Língua Portuguesa. Sobre isso, porém, eu falo em outro post.

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