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Os olhos de Capitu

Inauguro a seção de Literatura deste blogue falando de Machado de Assis. Não poderia ser diferente, tendo em vista que é, em minha opinião e na de muitos outros mais capazes de embasar a sua, o maior escritor da prosa brasileira. Machado de Assis já nem é mais um escritor: é uma instituição. Falar mal dele, por exemplo, exige argumentos quase impossíveis de conseguir. Mas não é por isso que optei por falar bem do Bruxo (Bruxo do Cosme Velho é sua mais conhecida antonomásia). Tenho o hábito de, todo ano, reler alguma de suas maiores obras, quando não me enveredo, numa noite ou em outra, por seus contos. Neste ano, escolhi Dom Casmurro, e ainda estou no início da releitura.

Fico realmente admirado e impressionado com a capacidade que Machado de Assis tem de ser conciso e poético, o que é uma reunião de atributos raríssima nos prosadores. Particularmente no Brasil, nossos escritores têm o péssimo hábito de, no afã de construírem passagens estéticas, enveredarem-se em adjetivações e metáforas desnecessárias, as quais, quando lemos, parecem-nos nitidamente desnecessárias à sobrevivência do texto. Por outro lado, há aqueles que privilegiam a objetividade, a concisão, o que gera uma literatura que busca sua estética exatamente afastando-se daquilo que aos clássicos pareceria belo. Machado de Assis reúne ambas as características de modo invejável. Os capítulos de seus romances são breves, mas ao mesmo tempo densos, repletos daquele humor ácido, daquela visão pessimista do homem e das relações humanas: alguns o chamariam realista, mas Machado é “o Polígrafo inclassificável”, e conferir-lhe rótulos é subestimar completamente sua estética única.

Logo no capítulo segundo de Dom Casmurro, o narrador busca nos situar quando às razões que o levaram a narrar sua história. Em certa passagem, ele afirma: “Os amigos que me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos”. Essa passagem me chamou a atenção como não o fez das outras duas vezes que li o livro – e é exatamente por isso que tenho o hábito de reler a obra machadiana. Quando se refere a “estudar a geologia dos campos santos”, o autor mistura, de modo inesperado, ciência e morte, resultando num eufemismo tão gelado quanto a própria ideia de morrer. A simplicidade da construção é impressionante, e sinceramente não consigo entender aqueles que classificam Machado como um escritor difícil, complicado. Complexo, talvez, dado o enorme poder facilmente verificado na simplicidade de sua sintaxe. Neste ponto de vista, sua obra é sem igual: qualquer pessoa interessada no estudo das estruturas da língua deverá recorrer a Machado, que as domina de forma ímpar.

Neste momento da leitura, acabo de reler o capítulo XXXII, Olhos de ressaca, que sempre foi, a meu ver, o melhor do livro. Nele, pode-se ler a passagem clássica da comparação entre os olhos de Capitu, que José Dias definira em capítulos anteriores como “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, e a vaga marinha. Melhor deixar o autor falar por si:

Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

É realmente de impressionar. Se todas as comparações de nossa literatura tivessem essa profundidade, não tenho dúvidas de que teríamos já produzido outros escritores geniais. Alguém conhece expressão metafórica da prosa mais popularizada do que “olhos de ressaca”? Tudo bem, alguns a usam pensando que ela se refere a uma pessoa acordando depois de uma noite de bebedeira. Ainda assim, a metáfora está na boca do cidadão comum.

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