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Depois do pôr do sol

Na passagem da adolescência à vida adulta a maioria de nós perde algo que eu diria inominável: poderia ser inocência, ingenuidade, mas tais palavras costumam ser usadas, nesse contexto, com uma carga ligada à imaturidade ou à infantilidade, e não é bem a isso que eu queria me referir. Na falta de uma palavra melhor em meu repertório, vou chamar esse algo de credulidade, ainda que tal palavra também esteja distante da ideia exata que tenho em mente. Eis a eterna luta de quem escreve: o duelo com as palavras.

Acredito que, até o momento da perda dessa credulidade, nós cremos em tudo: cremos no amor eterno, no amor impossível, no amor à distância, nas amizades, na humanidade, no socialismo, até no PT, por que não? Vivemos esse misto de paixão e autoconfiança, convictos de que não somos apenas mais uma engrenagem na gigantesca máquina terrestre, mas seres especialíssimos, escolhidos por Deus, ou por nossos pais, ou pelo acaso, para sermos os portadores de boas novas, os descobridores da cura daquela doença, os autores dalgum livro inesquecível. Tudo é possível, quando se tem credulidade.

Mas a realidade não tarda a se nos mostrar, e logo percebemos que somos, sim, especiais, mas não tanto quanto supúnhamos. Nossa inteligência pode ser grande, mas é limitada. Nosso amor pode ser duradouro, mas não eterno. Nossa vida pode ser longa, mas jamais deixará de ser breve. E aí então passamos a ser um pouco (ou um tanto) céticos. Aquele futuro de grandes glórias e reconhecimento torna-se um presente de pequenas, e suadas, vitórias; de indiferença dos outros em relação a muito do que pensamos, do que dizemos, do que escrevemos. Um presente que é também de derrotas, e de reconstrução diante dos fracassos. Vida cruel.

Tudo isso me veio à mente porque me lembrei de dois filmes geniais que vi há algum tempo. Antes do amanhecer (Before Sunrise, de Richard Linklater, 1995) e Antes do pôr do sol (Before sunset, de Richard Linklater, 2004). Os filmes contam a história de um casal, Celine e Jesse, em duas fases distintas de suas vidas. O primeiro mostra-os se conhecendo num trem, e vivendo um dia com horas contadas: os dois se separarão inevitavelmente na manhã do dia seguinte, pois ela deve voltar a Paris, e ele aos Estados Unidos. Mas isso não os impede de se apaixonarem perdidamente. Na despedida, numa estação de trem em Viena, os dois marcam um encontro, para dali a seis meses, naquele mesmo lugar, mas, repletos de credulidade, eles sequer trocam telefones ou pegam o endereço um do outro. Então? Os dois se verão novamente? Não sabemos, pelo menos não no primeiro filme.

A sequência mostra ambos mais velhos, e finalmente ficamos sabendo se eles foram ao tal encontro ou não. Encontro? Desencontro? O fato é que, agora dez anos mais velhos, os dois já não são os mesmos; não comungam dos mesmos ideais da juventude; não apresentam a mesma visão idílica do mundo e de si mesmos. São pessoas feitas uma para a outra, mas que apresentam as cicatrizes de tudo aquilo que os levou até ali, até aquele novo encontro. Só há um problema: ele precisa voltar aos Estados Unidos num voo que partirá logo após o pôr do sol. E agora? Eles marcarão novo encontro para dali a um tempo, num lugar específico? Deixarão de trocar telefones ou emails, nessa nova era do século 21? Não vou contar o final, óbvio, mas uma coisa é certa: eles não são mais crédulos.

Não podemos dizer o que ocorrerá após o pôr do sol, seja ele o do filme ou o de nossas vidas miseráveis. Mas uma pergunta que eu não consigo responder, nem depois de assistir várias vezes aos dois filmes é a seguinte: é melhor ser crédulo ou ser cético? Eu não sei. Cético que sou, às vezes sinto falta da credulidade. Mas quando me lembro daquelas idealizações da juventude, eu ponho toda essa nostalgia de lado. É bom duvidar. A dúvida não nos torna menos românticos, menos amigáveis. Mas ela certamente nos faz mais perspicazes, a tal ponto, que nós sabemos muito bem que aquele voo…

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Arquivado em Cinema, Crônicas