Machado de Assis: o racista.

Noites de insônia, posto que venham acompanhadas de desconforto e sensação de cansaço, trazem consigo uma vantagem única: na ausência de sono, é possível ler páginas e páginas daquele livro que teima em avançar, porque sabe merecer leitura cuidadosa e atenta, a fim de que seja mais bem aproveitado pelo leitor. Pois iniciei recentemente a releitura de Dom Casmurro, obra-prima de Machado de Assis, e detive-me ontem em uma passagem particularmente interessante. Desta vez, prometo não rasgar de elogios nosso maior escritor (isso foi um elogio?) e procurarei deter-me em um ponto polêmico de sua escrita.

No capítulo XVIII do livro, Bentinho e Capitu estão na casa dele, quando à janela aparece um negro vendendo cocadas. Vejamos:

“Capitu deixou-se ir, rindo; depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Tínhamos chegado à janela; um preto, que, desde algum tempo, vinha apregoando cocadas, parou em frente e perguntou:

— Sinhazinha, qué cocada hoje?

— Não, respondeu Capitu.

— Cocadinha tá boa.

— Vá-se embora, replicou ela sem rispidez.

— Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas.

Comprei-as, mas tive de as comer sozinho; Capitu recusou. Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas, o que tanto pode ser perfeição como imperfeição, mas o momento não é para definições tais; fiquemos em que a minha amiga, apesar de equilibrada e lúcida, não quis saber de doce, e gostava muito de doce. Ao contrário, o pregão que o preto foi cantando, o pregão das velhas tardes, tão sabido do bairro e da nossa infância (…).”

Dois pontos me chamaram atenção. O primeiro foi a palavra empregada para se referir ao negro: preto. Preconceito racial? A segunda tem a ver com o “preconceito linguístico”. Machado de Assis faz questão de registrar o falar diverso do padrão nesta personagem, ao passo que as demais (como fica claro ao longo do livro) proferem a norma culta como se fosse ar saindo dos pulmões. Exagero? Ah, mas quem narra esse livro é Bentinho, e não Machado de Assis: Bentinho podia usar preto na referência a um negro; onde está o racismo do escritor? Recorramos a outra obra, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Logo no capítulo XI, pode-se ver o tratamento dado pelo menino Brás Cubas a um escravo, Prudêncio:

 “Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, — algumas vezes gemendo, — mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um — “ai, nhonhô!” — ao que eu retorquia: — “Cala a boca, besta!”

 Dirão: mas essa passagem revela como os negros eram tratados em casa de brancos. Certo. Então Machado de Assis só gosta de narradores racistas? Não serve isso a demonstrar o racismo na obra do escritor? Pois então, recorramos aos nomes próprios que Machado dá a seus personagens negros: João Fulo, Maria Gorda. E as pancadas sobre Lucrécia em O caso da vara? Sei não…

Ainda não se convenceu? Nem eu. Sempre tive um pé atrás quando ouvi da suposta força que Machado de Assis fazia para manter-se afastado de sua origem socioeconômica. Alguns grupos que lutam contra o racismo, com base inclusive em opiniões de críticos da época, sempre se queixaram de Machado de Assis como um negro “embranquecido”, não por ser mulato, mas por tratar em seus livros do mundo burguês, seguindo uma estética europeia, enquanto poderia usar de sua condição para enfrentar o preconceito do qual ele mesmo fora vítima tantas vezes. De fato, os negros aparecem na obra machadiana como personagens secundários, e normalmente apresentam fala grosseira, diversa da padrão, e aparecem associados a certo tom de galhofa. Racismo?

Sendo Machado de Assis um realista que busca retratar objetivamente a sociedade, parece-me natural que ele espelhe em suas obras não apenas a exclusão social dos negros pelo não domínio da norma padrão, mas ainda as condições humilhantes a que muita vez eles estavam submetidos. Entretanto, não vi até hoje – não em sua obra literária – nenhuma comprovação de que Machado fosse um defensor da causa abolicionista, quanto mais um racista (talvez queiram transformá-lo em nosso Coleman Silk…). O que vi foi um escritor profundamente atento a sua realidade, um crítico, sem dúvida, mas sem enviesamento político. Machado foi, inclusive, um crítico da abolição nos moldes em que ela foi feita: com o êxodo dos negros das sensalas às favelas. No conto Pai contra mãe, pode-se notar a rejeição de Machado à escravidão, o que seria natural em qualquer pessoa dotada de inteligência e juízo crítico. Mas essa rejeição vem não de discursos inflamados, mas da demonstração dos horrores e da desumanidade no tratamento dos negros. Levantar a bandeira de algum movimento? Felizmente, Machado não se rendeu a isso. Poderia ele com isso ter ganho maior admiração dos grupos que lutam contra o racismo velado na sociedade brasileira. Preferiu, em vez, imprimir grande força a seu estilo como escritor.

 A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres.

A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.

O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.

Há meio século, os escravos fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói. A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.

O que nos revela tudo isto? Que Machado de Assis, a despeito de sua origem pobre e da herança negra que trazia consigo no sangue, adquiriu na sociedade brasileira do final do século 19 e início do século 20 uma posição social admirável: ascendeu socialmente, aprendeu a norma culta por meio da leitura dos clássicos e dos filólogos da época, e tornou-se tão somente o maior escritor brasileiro. E olha que não havia ninguém à época para alardear o preconceito linguístico. E olha que o Brasil era certamente mais racista e menos tolerante aos negros. E olha que nem havia cotas… Vencedor é isso aí.

Mas eis que não cumpri o prometido. Acabei tecendo elogios ao escritor que, mesmo sendo um dos escritores mais influentes de nossa literatura, a ponto de criar uma pesada sombra em todo brasileiro que se arrisca a escrever, não saiu por aí difundindo ideologias como “nós pega o peixe” ou coisas do tipo. Terá sido ele um “ideólogo da norma linguística”, ou “um conformado” com as imposições dos brancos? Menos, por favor! 

Machado de Assis não precisa de defensores, nem eu tenho a pretensão de sê-lo. Mas sabem como é: numa época em que figuras históricas (veja-se Monteiro Lobato) são tachadas disto ou daquilo tendo como base os critérios morais de nossa época, é sempre bom vigiar. Não me canso de repetir para mim mesmo que o que me enche o saco no politicamente correto não é o correto: é o politicamente.

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Sobre petistas e petralhas

Paixões políticas à parte, é bom começar o post esclarecendo: nem todo petista é petralha; nem todo petralha é petista. Como se vê, vou na contramão das simplificações que esquerda e direita normalmente costumam propor. Política é coisa complexa, e jamais pode ser reduzida ao maniqueísmo. Não se trata de um jogo do bem contra o mal, em que o bem inevitavelmente triunfará, e porá fim às maldades do lado oposto. Política envolve projetos, ideias, deliberação sobre essas ideias, divergências quanto a elas, o que é bom, pois política (embora venha da palavra grega para cidade, polis) lembra-me o poli-, de pluralidade. De fato, não consigo conceber política como ausência do plural, do diferente, do numeroso – sem isso, mais apropriada seria a denominação apolítica, em seu sentido etimológico, inadequado para os negócios públicos, ou monolítica, se ficarmos com o trocadilho. Mas política não é só isso: é também um jogo de poder, a “arte do possível”, não do justo, não do bom. Assim, seja eu um petista, um tucano, um comunista, um liberal, um ultraliberal, não posso jamais querer simplificar o jogo político num jogo em que há, de um lado, os interesses puros e castos e, de outro, os interesses escusos, obtusos. Porque não é assim que se faz política.

Por tudo isso, qualquer simplificação ou enquadramento de rótulos como “petralha”, “tucanalha” é infantil por natureza. Mas isso não impede que essas denominações apareçam para aquecer o pobre debate político que hoje se trava em nosso país. O PT não é o demônio, nem o santo. Qualquer tentativa de afirmar o contrário carece de seriedade. E é exatamente aqui que eu chego ao ponto de partida deste post. Os próximos dois parágrafos são uma breve retrospectiva histórica, e podem ser pulados sem comprometer o resultado do post, para quem tiver pressa.

Em 1989 (eu tinha dez anos, mas me lembro bem), fui a todos os comícios de presidenciáveis que houve em minha cidade: naquela época eram showmícios, com direito a concertos de artistas sertanejos, pagodeiros, entre outros, depois do discurso inflamado. Lembro-me da admiração pela história de Lula e por seu projeto de governo. O operário que venceu a censura, que subverteu a “lógica do patrão” na sociedade brasileira e então se punha como presidenciável, “sapo barbudo”. Lula foi derrotado em 1989 (no segundo turno, por Fernando Collor de Melo), 1994, 1998 (em ambas, por Fernando Henrique Cardoso, no primeiro turno) e, finalmente, em 2002, impôs derrota ao candidato da situação, José Serra: Lula teve meu voto.

Votei em Lula porque, desde criança, vi aquele discurso da inclusão social, da diminuição das desigualdades sociais e do monopólio da ética ser vencido, derrotado, pelo velho discurso de quinhentos anos. Chegara a hora de dar chance ao novo, ao negro, à mulher, ao operário. Negra, mulher, de origem pobre, Benedita da Silva foi nomeada ministra. E uma das primeiras a capitular: minha primeira desilusão. Mas todo mundo sabe: a desilusão para a maior parte dos petistas ocorreu em 2005, quando do escândalo do mensalão. Lembro-me que minha reação diante daquelas denúncias, a cada dia uma nova, era de negação. “Não pode ser. Não. Deve ter havido uma ou outra coisa, mas não nessa dimensão que estão falando.” A negação é talvez a etapa mais difícil no lidar com a morte, com o luto e equivalentes (se você já é ou já foi petista desiludido, veja em que fase você está no quadro ao final do post).

Creio que a desilusão com o petismo não tenha sido só minha, mas de vários sonhadores. E antes que eu seja acusado de romântico por ter acreditado numa real mudança na política brasileira com a escalada do PT ao poder, deixe-me esclarecer um fato: é evidente que eu tinha consciência de que haveria corrupção no governo petista. Mas a questão foi além: o que se viu não foi só corrupção: foi corrupção e descaso; foi corrupção e galhofa. Num primeiro momento, Lula se disse traído, apunhalado pelas costas; depois, quando a poeira se assentou, passou a afirmar que o mensalão não existira, que fora invenção da imprensa golpista. Delúbio Soares (este mesmo que foi recebido de volta ao PT com churrasco recentemente) chegou a afirmar que o mensalão se tornaria “piada de salão”. E é aqui que reside de fato minha rejeição ao petismo. Não fui daqueles que, diante do mensalão, passou a enxergar o PSDB como um estandarte da ética. Minha mudança de corrente política se deu após esse escândalo, já encontrando seus germes antes dele.

Passei a olhar o petismo de forma desconfiada, em primeiro lugar, quando da expulsão de parlamentares que se recusavam a votar a favor de certas políticas do governo (Luciana Genro, Heloísa Helena…). Não que eu simpatizasse com as posições de tais parlamentares, mas, a meu ver, um partidário não deverá estar submetido às vontades do governo, mas às vontades do cidadão que o elegeu. Posteriormente ao mensalão, começaram as atitudes mais abomináveis do petismo: a desqualificação da denúncia, a troça feita à imprensa, o desrespeito à oposição.

Petistas e partidários chegaram a cunhar um termo para desqualificar toda e qualquer denúncia feita pela imprensa: “partido da imprensa golpista” (PIG), técnica chavista de desrespeito ao pluralismo pelo ataque sem fundamento. No acrônimo PIG, há nítida referência a porco, mas permitam-se uma ressalva: o PT está mais próximo dos porcos de Orwell (A revolução dos bichos) do que a imprensa. O que interessa de fato é que as denúncias passam a ser vistas como mentira, independentemente de seu conteúdo. Dilma é herdeira da técnica: na campanha presidencial, chegou a chamar de mentiras as acusações contra a então ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, a qual não se sustentou no posto nem mesmo duas semanas após as primeiras evidências de crime no ministério. Então, tudo que vier de Veja, Globo, Folha de São Paulo, independentemente de ser verdade, é negado pelo petismo de antemão com uma simples sigla: PIG. O curioso é que essas pessoas não têm memória: na década de 1990, Veja estampou centenas de capas denunciando casos de corrupção no governo FHC, mas nunca vi o ex-presidente levantar-se contra a “revistinha” (como Lula chamou Veja), muito menos o partido tucano difundir a zombaria à imprensa, instrumento vital ao controle dos atos de nossos governantes, e essencial à democracia.

Posteriormente, Lula chegou a defender o extermínio do DEM, ex-PFL. Confesso que uma de minhas resistências ao PSDB foi o fato de este ter se aliado ao que há de mais repugnante na história recente da política brasileira: o DEM só nos últimos tempos se tornou “democrata” (sei lá o que esta palavra significa para eles), pois sua história revela o contrário. Mas meu repúdio a certos setores ultraconservadores e oligárquicos representados pelo DEM jamais me fez sentir uma vontade de exterminá-lo, de execrá-lo da política, como propôs o popular ex-presidente. É deste discurso autoritário que tenho fugido.

O que nos leva ao conceito de petralha. A palavra foi cunhada pelo jornalista e blogueiro Reinaldo Azevedo, numa contração de petista com metralha (referência aos bandidos de Patópolis, os irmãos Metralha). A palavra chega a constar no dicionário Sacconi, embora eu não tenha nenhuma admiração por este gramático e dicionarista. No verbete, pode-se ler: “pessoa que, sem nenhum escrúpulo, não vacila em cometer todo e qualquer ato marginal à lei, como usurpar, mentir, extorquir, ameaçar, chantagear, roubar, corromper, ou que defende com ardor ladrões, corruptos, usurpadores, mentirosos, extorsionários, chantagistas, etc., que, porém, pousa como gente de bem”.

Isto esclarecido, pode-se ver claramente por que nem todo petista é petralha, e por que nem todo petralha é petista, embora, etimologicamente, haja referência ao petismo. O que nos leva a duas situações dentro do petismo: há petistas petistas e há petistas petralhas. Tenho amigos do primeiro tipo que não se incomodam com a denominação, porque sabem que ela não lhes diz respeito. Mas tenho conhecidos (amigos não!) petralhas, os quais religiosamente defendem Delúbio e quadrilha ltda. com tanto ardor, que eu percebo serem eles portadores de enfermidade psiquiátrica grave, ainda não catalogada no CID. Na democracia, há espaço para tucanos, petistas, democratas, comunistas, socialistas. Mas, por favor, não há espaço para petralhas, sejam eles de que partido forem. As críticas e as denúncias não irritam os petistas, pois estes sabem que criticar e denunciar são atos inerentes ao jogo democrático. Por isso, tenho certeza de que esse post não irritará a nenhum petista. Já aos petralhas…

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A verdade cruel

“E se todos os outros aceitassem a mentira imposta pelo Partido – se todos os registros contassem a mesma história –, a mentira tornava-se história e virava verdade. ‘Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado’, rezava o lema do Partido. E com tudo isso o passado, mesmo com sua natureza inalterável, jamais fora alterado. Tudo o que fosse verdade agora fora verdade desde sempre , a vida toda. Muito simples. O indivíduo só precisava obter uma série interminável de vitórias sobre a própria memória. ‘Controle da realidade’, era a designação adotada.”

“A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar. Não na mente individual, que está sujeita a erros e que, de toda maneira, logo perece. A realidade existe apenas na mente do Partido, que é coletiva e imortal. Tudo que o Partido reconhece como verdade é verdade. É impossível ver a realidade se não for pelos olhos do Partido.”

 (fragmentos extraídos da obra 1984, de George Orwell)

 

É realmente consternador o fato de que temos hoje, no Congresso Nacional, um projeto de lei (PL 7376/2010) que visa à instalação, no âmbito da Casa Civil da Presidência da República, de uma “Comissão Nacional da Verdade”, a qual, nas palavras do próprio PL, visa a “examinar e esclarecer as graves violações de direitos humanos praticadas no período fixado no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional”. O período referido no ADCT é o que vai de 1946 a 1988 e abrange, sobretudo, o período da ditadura militar brasileira (1964-1985).

Em primeiro lugar, é importante deixar claro quão importante é para a história de um país o conhecimento de seu passado. Museus como os do Holocausto (principalmente o de Berlim) e o do Apartheid permitem a um país que os crimes cometidos pelo Estado e pelos cidadãos, em razão do Estado, sejam eles de que natureza forem, não sejam esquecidos. Lembrar é importante para que o passado não se torne nova realidade, tão cruel quanto a passada ou, pior, mais cruel que ela. Por isso, não se pode deixar de comemorar o fato de que, finalmente, o Brasil dá novo passo no sentido de revelar seu passado, de expor as crueldades do período militar e de, como propõe o PL, reconciliar-se com sua história.

No entanto, é preciso refletir sobre os reais objetivos da instalação dessa comissão, sobretudo se levarmos em conta: (i) o âmbito em que ela é criada; (ii) sua composição; (iii) sua abrangência; (iv) sua denominação.

Quanto ao primeiro item, é estranho que uma comissão desta natureza esteja situada politicamente no interior do Governo: mais estranho ainda que esteja no âmbito da não tão bem reputada Casa Civil da Presidência da República. Como se pode falar em imparcialidade ou insuspeição, se é dentro da Casa Civil que estouram os mais diversos escândalos de tráfico de influência e aparelhamento do poder estatal? Ademais, sendo o Governo do Partido dos Trabalhadores formado por pessoas diretamente envolvidas em grupos armados e guerrilhas do período de 1964-75, como garantir a integridade desta comissão e o real alcance de seus objetivos, sem que haja suspeitas quanto à parcialidade de seus supostos “esclarecimentos” sobre o passado? Não deixa de chamar atenção o disposto nos artigos 7º e 10 do PL: o primeiro estabelece o salário de R$ 11.179,36 aos membros da comissão; o segundo dispõe que “a Casa Civil da Presidência da República dará o suporte técnico, administrativo e financeiro necessário ao desenvolvimento das atividades da Comissão Nacional da Verdade.”

O que nos leva à segunda questão: quem integrará tal comissão? Eis o ponto que, a meu ver, é o mais polêmico e o mais sujeito a arbitrariedades hermenêuticas. Estabelece o artigo 2º que “A Comissão Nacional da Verdade, composta de forma pluralista, será integrada por sete membros, designados pelo Presidente da República, entre brasileiros de reconhecida idoneidade e conduta ética, identificados com a defesa da democracia e institucionalidade constitucional, bem como com o respeito aos direitos humanos”. Analisemos os itens destacados. Sendo o Presidente da República quem designa os membros, não há, em definitivo, a possibilidade de se falar em ausência de enviesamento político, ainda mais que a atual Presidente foi, ela mesma, partícipe da luta armada no período analisado, sendo, portanto, interessada em um dos pólos que, inevitavelmente, se porão em conflito. Além disso, todos sabemos que “reconhecida idoneidade e conduta ética” são atributos raros no mundo político brasileiro, servindo apenas como força de expressão ao artigo. “Defesa da democracia” é das expressões mais vagas possíveis: os militares de 1964 julgavam fazer a tal “Revolução” exatamente no intuito de libertá-la das ameaças comunistas; os grupos armados arrogavam-se o direito de defendê-la justamente porque entendiam que um governo só poderia ser democrático se proviesse de uma revolução para instalação da ditadura proletária. Curioso é que os guerrilheiros ainda atuantes em nosso universo político reescrevem a história a seu bel-prazer: hoje, afirmam que à época da ditadura, lutavam pela democracia (leia-se pela redemocratização e volta à normalidade constitucional); no passado, diziam também lutar pela democracia (leia-se a instalação de um regime comunista nos moldes castristas). Ser identificado com a defesa democrática quer dizer exatamente o quê? E a “institucionalidade constitucional”? Estes tipos abertos me deixam com plena convicção de que a Comissão da Verdade, caso venha a se instalar, dirá a verdade que lhe convier. Mas o mais interessante aqui é “defesa dos direitos humanos”: sequestros e assaltos a banco para financiamento de luta armada; morte de soldados e civis por grupos de esquerda também são crimes contra os direitos humanos ou são crimes comuns?

O que nos leva à terceira questão. Qual abrangência terá a Comissão da Verdade na exposição e exame dos crimes cometidos no período? Levará em conta os crimes contra os direitos humanos cometidos por alguns “companheiros”, inclusive de alguns instalados na Casa Civil? Ou só exporá a “maldade” e o “sadismo” dos militares e policiais que, num jogo político maniqueísta, lutavam contra jovens idealistas muito bem intencionados? Faço desde já uma observação: é claro que crimes cometidos pelo Estado têm gravidade maior do que os crimes cometidos pelo cidadão comum, haja vista que o Estado existe para garantir, entre outras coisas, a segurança e os direitos do cidadão: quando os viola, o Estado deturpa sua própria razão de ser. Não estou, portanto, dizendo que os crimes cometidos institucionalmente são equiparáveis aos cometidos por cidadãos ou grupo de cidadãos. E essa é uma das questões que a Comissão da Verdade terá de enfrentar. Se o jogo for puramente do bem contra o mal, sendo o mal representado por torturadores, delegados, cabos, soldados… melhor será deixar essa Comissão no papel, pois para isso já há novela de péssimo gosto sendo transmitida por certa emissora decadente.

Por fim, aquilo que mais me interessa: o nome da tal comissão. Tenho sempre desconfiança de quem se coloca como, ou de quem se denomina, autor da verdade. Há nisso um viés autoritário, semelhante a certos eufemismos nazistas que mencionei no post Spooks. Como é possível, na investigação de fatos ocorridos há quarenta anos, chegar a uma “verdade”? Qual será a correspondência desse signo com algum objeto de nosso conhecimento no universo extralinguístico? O Estado, quando passa a ser avalista do que esta ou aquela pessoa define como “verdade”, também não sai de seu papel? Tenho certa desconfiança dessa palavra porque ela me cheira orwelliana demais, e traz uma visão sempre unilateral dos fatos. Não me esqueço jamais de uma aula de Teoria Geral do Processo em que o professor deu à turma uma lição mais importante que a análise de muitos dispositivos legais: disse ele que, num processo, é perfeitamente possível que as duas partes em conflito tenham razão e digam a verdade; o juiz há de levar isso em consideração. Quando constrói a verdade no processo, o julgador jamais chega a uma verdade única, mas a uma verdade que ele considera possível, a um grau de convencimento em que pesará mais o que foi dito por uma parte do que o dito pela outra. E essa lição terminou com a leitura de um poema de Carlos Drummond de Andrade, um socialista desiludido. Lembro perfeitamente que, após aquela leitura, eu me dei conta do que realmente era o Direito: saíam as verdades absolutas, e entrava a poesia.

 

VERDADE

Carlos Drummond de Andrade

 

A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.

 

Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.

 

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.

 

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

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Só?

Hoje estou sem vontade de postar. Por isso acho que vou escrever só para ver o que sai.

Recentemente publiquei um post sobre os filmes de Richard Linklater, Antes do amanhecer e Antes do pôr do sol, e hoje me lembrou outro filme, que caminha no mesmo sentido, embora os meios sejam distintos. Trata-se de Apenas uma vez (Once, de John Carney, 2007), um romance daqueles raros de encontrar no cinema: saem adolescentes com rostos e corpos de modelo, entram pessoas maduras, de tipo físico normal; sai a idealização da paixão desenfreada, entra o desenvolvimento casual de uma relação madura; sai a trilha sonora melosa a pontuar as cenas visando às lágrimas do espectador, entra a trilha integrada ao enredo e às personagens.

Pois é exatamente na música que reside a força de Once (acho o título original mais rítmico, pois a tradução nacional não consegue manter a força de uma única palavra e ainda acrescenta um desnecessário apenas). Mas tudo bem: falemos do filme. Once conta a história de dois jovens adultos, o cara e a garota (as personagens não têm nome), que vivem vidas quase marginais na Dublin dos dias de hoje: ele ajuda o pai numa assistência técnica de aspiradores de pó, e se apresenta com seu violão cantando nas ruas da cidade em troca de algumas moedas; ela é uma imigrante tcheca que vive de bicos, vendendo flores, fazendo faxinas, e cuida da mãe também imigrante e da filha de tenra idade – nos momentos livres, vai a uma loja de aparelhos musicais a fim de tocar um pouco de piano.

Os dois se encontram nas ruas mesmo, quando ela resolve se apresentar a ele após repetidamente ouvi-lo cantar. Se, nos filmes de Linklater, o diálogo sustentava a relação do casal, em Once vemos o relacionamento acontecer por causa e por meio da música. Um passa a conhecer a desgraça amorosa da vida do outro ouvindo suas canções: o cara fora abandonado por uma namorada que partira a Londres; a garota vivia ainda um casamento a distância com seu marido tcheco, aparentemente desinteressado por ela. Se a história parece condenada a cair num amontoado de clichês de filmes românticos, o diretor sabe muito bem como fazer para que isso não aconteça: e nada melhor para aumentar a tensão do amor do que sua não consumação; e nada melhor para também aumentar essa tensão o fato de cada música ser apresentada no momento certo, revelando como aquelas duas pessoas sofridas, de fato, se merecem.

O cara, às vezes, parece interessado na língua da garota, ou melhor, no idioma. Pergunta-lhe uma palavra ou outra ao longo do filme, e há uma cena em particular cujo significado é importantíssimo na história. Pergunta a ela se ela ama o marido ainda, e quer saber como se faz essa pergunta em tcheco. Ela diz-lhe: Noor-esh-ho? Ele então lhe faz a pergunta, e ela: Noor-ho-tebbe. Não há legendas nesta parte, nem para os espectadores de língua inglesa, nem para nós (felizmente), dada a intenção do diretor de nos colocar na mesma situação que o cara. Ainda bem que essa tradução pode ser encontrada aqui. O desfecho da história fica para o filme contar, não para o aspirante a blogueiro que ora escreve.

Prefiro concentrar minha escrita nas reflexões que o filme propicia. Once? Uma vez? Por que esse título? Por um tempo cheguei a cogitar a hipótese de que a palavra se referisse a um fato específico do filme (que não posso contar para não estragar a surpresa de quem não o viu), mas tendo-o revisto recentemente, cheguei a uma conclusão mais sólida e, acredito, mais próxima da verdade (da minha). O filme é uma fábula realista: sem fantasiar ou deturpar a realidade conta aquela história de amor que todos nós gostaríamos de ver ou viver, mas de uma forma que não nos satisfaria. Sei que é um clichê dizer isso, mas às vezes os lugares-comuns explicam melhor do que teorias falsamente elaboradas: não há previsibilidade em alguns dos fatos mais importantes da vida, pois eles simplesmente acontecem. Acho que o filme pega bem essa ideia, e constrói uma das histórias de amor mais bonitas da década de 2000, e, ao mesmo tempo, uma das mais cruéis. Once é a primeira palavra das fábulas em inglês, que se iniciam com o Once upon a time… Acho que o filme é isso: o conto de fadas que não quer se alimentar de falsas expectativas. Então será que o título aduz à ideia de que um amor como esse só ocorre uma única vez? Acho que não, e por isso creio que o título original não faça menção a nenhum apenas.

E é aí que entra a ideia de satisfação. Duas músicas do filme tratam do assunto: uma delas diz “If you want me, satisfy me”; a outra traz “I’m letting myself down by satisfying you”: ou seja, enquanto em uma delas a satisfação do outro possibilita o amor, na outra ela destrói quem tenta satisfazer. Acho que as relações têm um pouco disso mesmo: elas se consomem para que possam sobreviver, sem perceber que, consumindo-se, elas se esvaem.

É impossível satisfazer outra pessoa, cada vez me convenço mais disso. Aquilo que se permite uma vez torna-se pouco, e precisa ser novamente permitido, e novamente, e novamente. Talvez o filme traga uma visão mais possível do amor entre um homem e uma mulher. Uma vez. Só?

 

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A língua e a luta de classes (1ª parte: a sociedade do bedel)

Em post anterior – na verdade, o primeiro do blogue – fiz uma crítica ao pensamento dominante nas faculdades de Letras no Brasil: a teoria sociológica marxista da luta de classes aplicada à Linguística. Aproveito essa ótima oportunidade de discorrer mais sobre o assunto, tendo em vista as notícias recentes que trazem a defesa das teorias de “preconceito linguístico” nos livros escolares, mostrando que a discussão transcendeu o ambiente universitário, quase todo ele já cooptado pelos doutrinadores de esquerda, e chegou finalmente ao Ensino Médio e, por tabela, dada a repercussão do caso “Nós pega o peixe”, a toda a sociedade.

O incidente traz aos cidadãos comuns a possibilidade de refletir sobre que nível de formação nossos professores (graduados em Licenciatura) estão atualmente recebendo nas universidades. Embora a discussão sobre “preconceito linguístico” só agora esteja ocorrendo em escala nacional, há tempos ela já me incomodava, dada a predominância que ela tem tido na lavagem cerebral que é feita pelos marxistas da língua. Antes do ataque, uma explicação: a tal vertente sociolinguística marxista não nasceu a partir da constatação de fenômenos linguísticos; ao contrário, ela nasceu da conformação de uma teoria já pronta (a teoria da luta de classes) aos fatos da língua. Como o assunto é complexo, vou me permitir transformá-lo numa narrativa alegórica, a ser contada em duas partes. Há pontuações na historinha: se elas confundirem, perdoe-me e leia-as primeiro, depois o resto. Começa assim:

 

I. O professor Carlos Marques, altamente viciado no ópio dos intelectuais (a expressão é de Raymond Aron, um dos principais críticos ao marxismo), numa de suas viagens lisérgicas, teve uma ideia que ele mesmo julgou brilhante:

– E se essa teoria escarlate for adaptada à minha área de estudo? Simples assim: como as classes sociais estão, ab initio (pontuo: eles gostam desses termos; fica o escrito mais elegante, e o interlocutor se deixa mais facilmente persuadir), condenadas a uma luta entre si devido às desigualdades econômicas que se lhes impõem, nada mais natural (pontuo: deficiência no raciocínio lógico) que haja também uma luta de classes dentro da língua, luta essa que se daria quando uma classe socialmente privilegiada impõe sua maneira de falar (pontuo: constatação inventada, que não se conforma aos fatos) aos demais, economicamente oprimidos – coitadinhos ficaria mal em meu discurso, ele pondera. A partir dessa dominação (pontuo: observe o leitor que a consequência não se deduz da conclusão nem das premissas), surge um padrão-língua injusto, cruel, que passa a ser usado em textos oficiais, artísticos e educativos, o qual excluirá o proletariado, digo, as classes oprimidas, do bem-falar, condenando-os eternamente a semelhante opressão (pontuo: visão apocalíptica) por meio da linguagem.

Após longa pausa para autoadmiração, o pensador deleitou-se com mais um trago de ópio e, orgulhoso, pensou:

– Há de ter um nome novo essa nova disciplina humana por mim inventada. Que nome lhe darei? – e, após não muito delongada reflexão, excluiu uma alcunha que lembrasse à doutrina seu próprio nome, optando por simplesmente tomar um nome já difundido: Sociolinguística*. Bravo! Bravo! – inflou-se o douto Carlos Marques – é hora de cooptar seguidores.

Carlos Marques saiu então de sua nada humilde residência nos Jardins paulistanos, em busca de jovens que se arrogassem a denominação “intelectuais”, dispostos a difundir sua religião sua ciência. Nas aulas, o mais novo pensador a ser inserido no rol das grandes contribuições humanas ao conhecimento aboliu o conteúdo programático para que sobrasse mais tempo dedicado à explicação e à discussão de sua doutrina; orientou graduandos, mestrandos, doutorandos, dizendo-lhes que não mais se dessem ao trabalho de discutir a norma (nem tampouco as formas adequadas de descrever a língua, para que, durante as lições, os alunos pudessem compreendê-la e agir diante dela); nos intervalos das aulas, distribuía panfletos linguísticos artigos científicos por ele escritos. A doutrina difundiu-se, Carlos Marques fez-se famoso, comprou outro apartamento nos Jardins, o que não o impediu de, em inúmeras palestras (dizem que ele cobra altíssimo valor por elas), continuar combatendo o preconceito linguístico, sempre usando como instrumento de comunicação a pérfida norma padrão, rechaçada por ele em seus escritos. “Não ia pegar bem escrever esses artigos com erros de concordância”, justifica ele, para si mesmo, a fim de não causar mal-estar entre seus copartidários nas ciências linguísticas. (continua…)

 

Carlos Marques? Isso é uma ironia em relação ao grande pensador alemão? De forma alguma. Um pensador alemão, no final do século 20 ou no início do século 21, jamais chegaria a uma teoria estapafúrdia como essa. Essa teoria precisa de um país fraco intelectualmente para ganhar espaço. Em que país o universo da intelectualidade está mais completamente tomado pelas teorias sociológicas ultrapassadas de Marx? No Brasil, lógico. Não é à toa que, conquanto em vários países se possa constatar o desenvolvimento da Sociolinguística, em nenhum outro país do mundo (tome-se, por analogia, o ensino universitário do espanhol nos países latino-americanos) a norma-padrão é tão combatida, atacada, vilipendiada, quanto nestas terras cabralinas. E isso só pode ter uma razão: as pessoas deturpam a ideia de que a língua sofre naturalmente variações com o fato de que, por isso, ela não deve ser rigorosamente normatizada.

Para essa gente, o português brasileiro, daqui a uns cem anos, transformar-se-á em coisa ultrapassada, pois ele não será senão resquícios incultos de uma língua morta (Ó mar português, que o sal de nossos pensadores não transformem a língua pessoana em lágrimas de Portugal!). É o que se deu com o latim, língua difundida por toda a Europa e,  ante a impossibilidade de conter sua vulgarização, converteu-se nos inúmeros dialetos que, mais tarde, se transformariam em português, catalão, castelhano, provençal, galego… Exatamente por isso, em seu poema Língua Portuguesa, Olavo Bilac denomina, a esta, “Última Flor do Lácio, inculta e bela”. Inculta, porque nasceu da vulgarização do latim; bela, porque isso não a fez menor.

Então, se a vulgarização do Português poderá manter sua beleza, por que a norma? A resposta não pode ser outra, senão esta: porque não somos romanos; porque somos portugueses no sangue e brasileiros na alma; porque nossa língua nos define enquanto povo, sociedade; porque somos a nação de Machado, de Rosa, de Drummond, de Bandeira; porque pensamos nessa língua; porque só existimos nela; porque, sem ela, nada somos que nos permita caminhar juntos, como sociedade em busca de um ideal, sendo a língua o meio que nos possibilitará a deliberação, o debate, o confronto das ideias, a fim de que alcancemos os fins maiores; e, sobretudo, porque é pela língua que resistiremos a qualquer tentativa de nos arrancarem o que é nosso, o que é nossa característica mais humana – nossa capacidade de pensar, e de pensar corretamente com a língua que nos inseriu no mundo.

A história de Carlos Marques continua em breve. Altas emoções…

*Em razão de um comentário de Flavio Morgenstern, recebido pelo Twitter, estou fazendo uma pequena emenda ao post: não estou aqui fazendo crítica à Sociolinguística como ramo da linguística ocupado dos estudos das variações sociais, dialetais (diastráticas, diatópicas) da língua: apenas à corrente de certos pensadores, sobretudo da USP e da UnB, os quais – enviesados politicamente – buscam conformar teorias prontas aos fatos da língua.

** Acrescentei mais uma emenda ao post. Vou esperar os desdobramentos do caso “Nós pega o peixe” para continuar a história.

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Spooks!

Aqueles que me seguem pelo Twitter sabem como eu resisto a essa tendência de patrulhamento linguístico que se convencionou chamar de “politicamente correto”, que a partir de agora vou chamar de PC em algumas situações (nenhuma referência ao Partido Comunista). Seus defensores alegam que a resistência a ele consiste na tentativa de conservação de velhos preconceitos, como se o PC viesse magicamente combatê-los por meio da linguagem.

Embora só hoje a expressão tenha se consolidado idiomaticamente, o método de substituir expressões carregadas de negatividade por outras de teor mais positivo é velho, embora só ultimamente ele tenha se arrogado fins mais “nobres”. Tome-se como exemplo a expressão “solução final para o problema judeu” (Endlösung der Judenfrage, no original alemão): num primeiro olhar, assemelha-se a um plano de levar as Doze Tribos de Israel de volta à Terra Santa. Nada disso: como todos sabem, a expressão refere-se ao plano de extermínio dos judeus na Europa, plano este executado por Hitler e seu “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães” (bonito nome de partido, não?). Mais curiosa ainda era a inscrição posta na entrada das câmaras de gás dos campos de concentração: Bad und Desinfektion (Banho e Desinfecção). Acreditem-me: exemplos como esses não faltam na desarmônica e politicamente incorreta história da humanidade.

Para o mal ou para o bem, é perfeitamente possível mascarar as ações mais diversas do ser humano por meio de expressões eufemísticas, ou politicamente corretas, como as denominariam hoje. Mas é preciso desde logo fazer uma distinção: eu sei que o PC atua num sentido (pelo menos seu fim último é o de diluir e exterminar preconceitos, não pessoas) diverso daquele em que caminhavam as expressões eufemísticas nazistas. O ponto que vejo em comum nessas situações é que, em ambas, não se denomina o conceito por seu próprio nome. Foi Liev Tolstói quem, em um de seus diários, acentuou a importância de se seguir esse preceito: chamar as coisas pelo nome. Não me esqueço de Alex Supertramp aprendendo isso pouco antes de morrer em Na natureza selvagem (Into the wild, de Sean Penn, 2007). Estivesse vivo, o jovem certamente reconheceria na paranoia que tomou conta de seu país uma violação ao princípio tolstoiano. Pois, às vezes, é importante sim que se chamem as coisas pelo nome para que a realidade possa vir à tona, e aí sim, os preconceitos possam ser combatidos.

O politicamente correto, supõe-se, é uma reação ao conservadorismo que se enraíza na sociedade por meio das formas mais cruéis de preconceito. Pois eu vejo nele uma forma não de trazer à tona preconceitos velados, mas exatamente de velar preconceitos trazidos à tona nas mais diversas situações do cotidiano. Podem-se usar as palavras com intenções distintas, e quem conhece a diferença entre Semântica e Pragmática sabe que, ao passo que a primeira relaciona o signo com seu objeto de significação, a segunda o relaciona com o sujeito que faz uso desse mesmo signo, e por isso tenta captar as intenções impressas por esse sujeito no signo que ele emprega. Para sair da abstração, a palavra negro tem intenções distintas nas sentenças “Saia daqui, seu negro!” e “Os negros no Brasil ainda lutam contra o racismo”, e acredito que sua substituição por afro-brasileiro, tanto na primeira quanto na segunda sentença, não alteraria o significado que, pragmaticamente, o signo assume em cada um dos casos. Mesmo palavras que as pessoas tomam como carregadas de preconceito, como “veado”, podem ser usadas para expressar carinho em relação a um amigo. Já vi, em várias situações, amigos cumprimentarem-se, abraçarem-se, dizendo “E aí, seu veado! Há quanto tempo!”. Acho que ninguém saiu ofendido dessas situações, ao contrário. A intenção preconceituosa, mais do que uma palavra ou uma perífrase, é que deve ser combatida.

O fato é que a praga do PC chegou por aqui, e chega-se a exageros absurdos como o da tentativa de proibir uma obra de Monteiro Lobato nas escolas pelo suposto racismo encontrado pelos patrulheiros da comunicação. “Isso não se diz”, “essa palavra é carregada de preconceito” são afirmações generalistas demais no campo da linguagem, que é polissêmica por natureza, que não pode ser reduzida a intenções negativas supostas em todas as situações em que é empregada. Ultimamente, até a expressão “erro de português” tem caído nas mãos dos defensores mais enérgicos do PC: não é “erro”, é “tentativa de acerto”, já li em livros de Marcos Bagno (Preconceito linguístico e Dramática da Língua Portuguesa). Pelo amor de Deus, até onde isso vai parar? Será que não há uma Endlösung para tanto blablablá?

Toda vez que falo do PC, eu me lembro do pobre Coleman Silk. Acho que nenhum homem foi mais desgraçado que ele em matéria de vítima desse fenômeno linguístico. A história de Coleman é fantástica. Negro de pele muito clara, cresceu na América do pós-guerra cercado das mais terríveis manifestações de preconceito contra sua cor (ou condição de pele?). Ao entrar na Marinha, percebeu que muitos não o julgavam por negro, embora notassem nele traços distintos do americano branco de linhagem europeia, caucasiana, etc. Com base nisso, renegou a família e seu passado, e assumiu-se judeu: a mentira colou, e ele se tornou respeitável professor universitário (a família jamais soube dele novamente). No auge da histeria do PC nos Estados Unidos (aquela mesma em que uma felação no Salão Oval quase derrubou um presidente), Coleman Silk teve sua vida desgraçada: ao notar que dois de seus alunos nunca vinham à aula, resolveu perguntar “Essas pessoas existem ou são… spooks?”. Pois os alunos eram negros, e Coleman Silk foi ironicamente destruído pelo poder de uma palavrinha: spook, que em inglês pode ser tanto fantasma (acepção empregada pelo professor no contexto) quanto forma pejorativa para se referir a negro. Pois o negro autorracista, Silk, perdeu cargo, prestígio, esposa, tudo por causa de uma maldita polissemia, e do PC, claro: o racismo dele em relação a si mesmo, por ironia do destino ou do escritor?, volta para acertar contas no final de sua vida. Depois disso, ele, um erudito, envolve-se com uma mulher analfabeta, faxineira da universidade em que trabalhava, causando mais um escândalo em sua vida: ah, o Viagra!

Coleman Silk não existiu de verdade. Minto, existiu sim. É personagem de ficção de um belíssimo livro de Philip Roth, A marca humana. Quem há de dizer que os personagens de ficção não existem? Tanto existem que cá estou eu falando do pobre homem. Nesta obra, Roth ataca o politicamente correto com todas as suas forças literárias (e não são poucas), mostrando um ambiente kafkiano de linguagem a cercar os homens às vésperas do século 21. Como tudo chega atrasado por aqui, parece que só agora começamos a questionar os limites do politicamente correto. E, como esse tema rende, vou terminar esse post citando algumas das passagens mais fantásticas do livro, e continuarei a discussão sobre o PC e o patrulhamento da linguagem em outra oportunidade:

 “Assim, por que motivo, tendo transformado minha experiência de isolamento radical numa vida solitária de grande riqueza – por que motivo, sem aviso prévio, comecei a sentir solidão? O que me estaria fazendo falta? O que passou, passou. Não há como relaxar o vigor, voltar atrás nas renúncias. De que afinal eu sentia falta? Muito simples: daquilo que havia passado a me inspirar aversão. Daquilo que eu havia abandonado. Da vida. Do envolvimento com a vida.”

“Você tira a roupa, vai para a cama com alguém, e é justamente nesse momento que tudo aquilo em que você se esconde, sua particularidade, seja lá qual for, seja lá como estiver codificada, é descoberto, e é esse o motivo da timidez, do medo que todo mundo sente. Naquele lugar louco e anárquico, quanto de mim está exposto, quanto de mim está a descoberto? Agora eu sei quem você é. Vejo agora seus músculos de negro.

“Se o Clinton tivesse enrabado essa mulher, ela era bem capaz de ficar de bico calado. O Bill Clinton não é esse machão todo que dizem que ele é. Se ele vira a tal estagiária de bruços lá no salão Oval e enfia no cu dela, nada disso acontecia.”

“Nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excremento, esperma – não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. (…) Por isso toda essa purificação é uma piada. E uma piada grotesca ainda por cima. A fantasia da pureza é um horror. É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza.”

 Sério, não vou postar todas, porque são inúmeras, mas esta última dá bem a ideia do que muita gente ignora. Nem que fosse eventualmente, uma vez que lhes interessam as coisas do homem, os cientistas sociais deveriam cuidar – nos momentos em que não estão teorizando sobre fatos e ideias, nos momentos de lazer – mais da literatura, investigá-la, clarear suas ideias com um pouco de ficção, porque, embora a arte literária não tenha a pretensão de ser científica, ela tem pelo menos a qualidade de ser humana.

 

Uma emenda ao post, dado o comentário negativo que recebi. Eu não estou defendendo que se possa usar a linguagem para ofender outrem. Só estou dizendo que não é a linguagem que é responsável pela visão de mundo de seu usuário. Essa visão se manifesta PELA linguagem e não POR CAUSA dela. Assim, os preconceitos se combatem nas ações, pela educação, e não podando esta ou aquela palavra da boca dos falantes. Despidos de preconceitos, eles saberão como usar a linguagem com a forma adequada aos fins que buscam atingir. Quando citei o fato de chamar as coisas por seu nome, quis apenas dizer que cada falante entende ser esta ou aquela palavra a mais adequada para certo contexto, e é claro que essa escolha pode revelar preconceitos. Não é a palavra, porém, que traz o preconceito: ela é apenas o meio pelo qual ele se manifesta. Sem mimimi.

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Depois do pôr do sol

Na passagem da adolescência à vida adulta a maioria de nós perde algo que eu diria inominável: poderia ser inocência, ingenuidade, mas tais palavras costumam ser usadas, nesse contexto, com uma carga ligada à imaturidade ou à infantilidade, e não é bem a isso que eu queria me referir. Na falta de uma palavra melhor em meu repertório, vou chamar esse algo de credulidade, ainda que tal palavra também esteja distante da ideia exata que tenho em mente. Eis a eterna luta de quem escreve: o duelo com as palavras.

Acredito que, até o momento da perda dessa credulidade, nós cremos em tudo: cremos no amor eterno, no amor impossível, no amor à distância, nas amizades, na humanidade, no socialismo, até no PT, por que não? Vivemos esse misto de paixão e autoconfiança, convictos de que não somos apenas mais uma engrenagem na gigantesca máquina terrestre, mas seres especialíssimos, escolhidos por Deus, ou por nossos pais, ou pelo acaso, para sermos os portadores de boas novas, os descobridores da cura daquela doença, os autores dalgum livro inesquecível. Tudo é possível, quando se tem credulidade.

Mas a realidade não tarda a se nos mostrar, e logo percebemos que somos, sim, especiais, mas não tanto quanto supúnhamos. Nossa inteligência pode ser grande, mas é limitada. Nosso amor pode ser duradouro, mas não eterno. Nossa vida pode ser longa, mas jamais deixará de ser breve. E aí então passamos a ser um pouco (ou um tanto) céticos. Aquele futuro de grandes glórias e reconhecimento torna-se um presente de pequenas, e suadas, vitórias; de indiferença dos outros em relação a muito do que pensamos, do que dizemos, do que escrevemos. Um presente que é também de derrotas, e de reconstrução diante dos fracassos. Vida cruel.

Tudo isso me veio à mente porque me lembrei de dois filmes geniais que vi há algum tempo. Antes do amanhecer (Before Sunrise, de Richard Linklater, 1995) e Antes do pôr do sol (Before sunset, de Richard Linklater, 2004). Os filmes contam a história de um casal, Celine e Jesse, em duas fases distintas de suas vidas. O primeiro mostra-os se conhecendo num trem, e vivendo um dia com horas contadas: os dois se separarão inevitavelmente na manhã do dia seguinte, pois ela deve voltar a Paris, e ele aos Estados Unidos. Mas isso não os impede de se apaixonarem perdidamente. Na despedida, numa estação de trem em Viena, os dois marcam um encontro, para dali a seis meses, naquele mesmo lugar, mas, repletos de credulidade, eles sequer trocam telefones ou pegam o endereço um do outro. Então? Os dois se verão novamente? Não sabemos, pelo menos não no primeiro filme.

A sequência mostra ambos mais velhos, e finalmente ficamos sabendo se eles foram ao tal encontro ou não. Encontro? Desencontro? O fato é que, agora dez anos mais velhos, os dois já não são os mesmos; não comungam dos mesmos ideais da juventude; não apresentam a mesma visão idílica do mundo e de si mesmos. São pessoas feitas uma para a outra, mas que apresentam as cicatrizes de tudo aquilo que os levou até ali, até aquele novo encontro. Só há um problema: ele precisa voltar aos Estados Unidos num voo que partirá logo após o pôr do sol. E agora? Eles marcarão novo encontro para dali a um tempo, num lugar específico? Deixarão de trocar telefones ou emails, nessa nova era do século 21? Não vou contar o final, óbvio, mas uma coisa é certa: eles não são mais crédulos.

Não podemos dizer o que ocorrerá após o pôr do sol, seja ele o do filme ou o de nossas vidas miseráveis. Mas uma pergunta que eu não consigo responder, nem depois de assistir várias vezes aos dois filmes é a seguinte: é melhor ser crédulo ou ser cético? Eu não sei. Cético que sou, às vezes sinto falta da credulidade. Mas quando me lembro daquelas idealizações da juventude, eu ponho toda essa nostalgia de lado. É bom duvidar. A dúvida não nos torna menos românticos, menos amigáveis. Mas ela certamente nos faz mais perspicazes, a tal ponto, que nós sabemos muito bem que aquele voo…

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